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GUSTAVO GOMES DE MATOS

Cabeças unidas por um mesmo objetivo

  
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09/12/2014

GUSTAVO GOMES DE MATOS

Jornalista, pós-graduado em administração de recursos humanos e especialização em economia. Consultor de Comunicação Empresarial, com 18 anos de atuação em grandes organizações do setor privado. Professor universitário e conferencista de Comunicação Corporativa, é autor dos livros 'A Cultura do diálogo', pela Editora Campus/Elsevier, e 'Comunicação sem complicação: como simplificar a prática da comunicação nas empresas', 2ª edição, pela Editora Manole. É autor, também, de obras institucionais, tais como: Visão de um empreendedor - na realização empresarial, uma razão de vida (Engemaq Indústria de Máquinas -RS); PUC-Rio 60 ANOS - uma história de solidez; e Décadas vitoriosas - a história dos 60 anos do Senai.

 

Seja em linguagem metafórica ou pelo factível relato ficcional de uma realidade humana, o romance ‘Lorenza, a magnífica’, de Roberto Blattes da Rocha (Editora Multifoco), narra o drama da criação de gêmeas siamesas e a saga da sua mãe para protegê-las da perseguição religiosa e da segregação preconceituosa da sociedade italiana de Florença, no ano de 1494.

No livro, a mãe de Lorenza – as gêmeas são tratadas no singular, como uma única pessoa – conclui que com a intenção de preservar sua filha da sanha de uma sociedade segregacionista, sem querer, acaba pecando pela superproteção, favorecendo a formação do perfil de caráter de uma pessoa mesquinha e individualista, muito semelhante ao das pessoas às quais queria resguardá-la.

Lorenza cresce no confinamento de uma casa no campo, distante do convívio social, sendo servida com todo o zelo por sua mãe. Com 10 anos transcorridos, as duas lindas cabeças das gêmeas siamesas transfiguram-se na odiosa personalidade de pessoas perversas e intransigentes, sem noção alguma da realidade e dos valores humanos. Com essas características, ao final da trama Lorenza se lança para a vida acreditando em um mundo povoado por siameses e por alguns poucos seres desprezíveis constituídos por apenas uma cabeça. Podemos imaginar o choque de realidade que a esperava.

A formação de Lorenza acabou reproduzindo toda a monstruosidade de uma sociedade que não sabe educar seus cidadãos para os princípios da liberdade e da convivência harmoniosa das diferenças. Lorenza expressa o comportamento neurótico do indivíduo ensimesmado, que não consegue perceber nada além da busca de satisfação dos seus desejos e interesses mais imediatos. Por essa perspectiva estreita, só mereceriam um mínimo de respeito de Lorenza pessoas que se enquadrassem aos seus padrões de imagem e semelhança.

Podemos identificar uma grande analogia do enredo deste romance ao contexto organizacional, ao considerarmos as deficiências do mundo corporativo ligadas à falta de convivência das diversidades e de constantes conflitos interpessoais. A inabilidade de colocar-se no lugar do outro leva pessoas e organizações a práticas predatórias, distantes da valorização humana e do trabalho pelo bem comum. As organizações ensimesmadas não conseguem olhar além de si mesmas e perceber as reais tendências e demandas do mercado e dos seus clientes.

Assim como a personagem principal do livro, Lorenza – gêmea siamesa induzida ao desconhecimento de si mesma e da realidade –, a organização que não se autoconhece e não investe no desenvolvimento do seu corpo funcional acaba por comprometer sua própria existência, realizando uma espécie de autossabotagem.

Os pais que não conseguem direcionar a educação dos filhos para um mundo diversificado, constituído por multiuniversos, acabam favorecendo a incapacitação deles para a vida.

Da mesma maneira, o gestor que não compreende a importância da convivência criativa e produtiva das diferenças, e impõe o caminhar com pensamento único, acaba por cercear o desenvolvimento das competências técnicas e comportamentais das suas equipes.

Cada vez mais somos chamados para perceber a constituição do universo pela ótica da física quântica que contempla a existência de universos paralelos que compõem sistemas cosmológicos de multiversos. Trazendo para nossa realidade mais concreta, podemos associar essa interpretação com a necessidade de saber conviver com as diferenças humanas através do bom relacionamento interpessoal, que favorece a coexistências de diferentes pontos de vista a favor de objetivos em comum, por exemplo, a sustentabilidade socioambiental do nosso Planeta Terra.

Pais e líderes devem preparar as cabeças dos seus filhos e equipes para um mundo formado por bilhões de cabeças pensantes, todas unidas por um objetivo comum: ser feliz.

 
 


 
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