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Entrevistas

12/5/2010

IMPRENSA

Uma conversa sobre liberdade de imprensa e o novo jornalista digital com Marcelo Moreira

Marcos Moura

  
 
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Marcelo Moreira, editor-chefe do RJTV 2ª edição, vice-presidente da Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo (Abraji) e integrante do conselho do International News Safety Institute (Insi)

O ‘Nós da Comunicação’ completa dois anos nesta quarta-feira, 12 de maio, e como parte das comemorações promoveu um chat com Marcelo Moreira, editor-chefe do RJTV 2ª edição, vice-presidente da Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo (Abraji) e integrante do conselho do International News Safety Institute (Insi).

Marcelo respondeu sobre jornalismo investigativo, os riscos da profissão e o comportamento dos profissionais de imprensa em um cenário digital em que as mudanças acontecem cada vez com maior velocidade.

Confira o melhor do chat abaixo:

Marcos:  O Brasil não aparece nos rankings dos países mais perigosos para os jornalistas. Nem se compara o perigo de lugares, por exemplo, como Cuba, México, Honduras...O que difere nossos problemas dos deles?

marcelomoreira: É verdade e isso inclusive impressiona nossos colegas americanos e europeus. O Brasil, ao contrário de México, Colômbia, é um caso onde a impunidade não prospera em crimes contra jornalistas e isso para mim é o fator principal para que não estejamos neste ranking.

Nós da Comunicação: Por que a situação do México é tão crítica, por exemplo?

marcelomoreira: O México hoje é o país mais perigoso do mundo para se exercer a profissão de jornalista. Em 2008, eu estive duas vezes no México participando de um grupo de ONGs que foi ao país tentar entender o problema. Eu estava lá como conselheiro do INSI e nossa anfitriã foi a ONG article 19. Percorremos o país ouvindo jornalistas, parentes de jornalistas mortos ou desaparecidos, autoridades e membros do judiciário. O cenário é péssimo. No México, prosperam grupos de narcotraficantes, muitos ligados ao poder público. O judiciário não pune e os jornalistas não são vistos com respeito. E eles próprios são frágeis como instituição. O resultado é impunidade e autocensura. Os repórteres sabendo que podem ser ameaçados acabam desistindo de fazer as matérias. É contra isso que estamos lutando. 

Nós da Comunicação:  E qual é o trabalho da Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo (Abraji) e da International News Safety Institute (Insi) nesse contexto?

marcelomoreira:  A Abraji nasceu a partir da morte de um jornalista que foi o Tim Lopes. Nós, jornalistas, entendemos que aquele momento foi uma quebra de paradigma no Brasil. O jornalista perdia o pensamento inocente de que o crachá o protegia de tudo. Entendemos que nós precisávamos nos unir para duas questões fundamentais. A primeira: estarmos sempre bem preparados para uma matéria considerada de risco, e a segunda: cobrar das autoridades o seu papel. No caso do Tim, todos os assassinos foram presos, julgados e condenados. Isso é raro no restante da América Latina e isso faz com que um bandido pense duas vezes ao pensar em cometer um ato de violência contra um jornalista. Temos outro exemplo disso que foi com os agressores da equipe do jornal ‘O Dia’, na favela do Batan, em 2008. Os responsáveis foram identificados em pouquíssimo tempo pela polícia e estão sendo processados. Em ambos os casos, os sistemas policial e judiciário funcionaram. Com isso, os casos de crimes contra jornalistas são muito baixos no Brasil quando comparamos com os demais países latino-americanos.

Nós da Comunicação:  Falando de liberdade de imprensa, excluindo casos extremos de assassinatos, como está o Brasil? Que tipo de censura os veículos e jornalistas ainda sofrem?

marcelomoreira:  Nós vivemos em um país onde as regras da democracia funcionam. Desde o fim do regime militar nós podemos dizer que estamos em um ambiente confortável, onde a liberdade de expressão realmente acontece. Por mais que isso venha a incomodar e os políticos queiram criar mecanismos de controle, nós vivemos em um ambiente livre para expressar opiniões. Sejam elas quais forem. Claro que nem sempre foi assim e a gente sabe bem disso.

lorenna.oliveira:  Marcelo, o que você acha da censura velada por parte dos anunciantes?

marcelomoreira:  Aí você tocou num ponto importante. A censura por regra não existe. Mas uma autocensura, promovida pelos próprios veículos e movida por razões comerciais, estas, sim, podem ocorrer. Embora, claro que a gente tenha que se posicionar contra qualquer tipo de censura

Nós da Comunicação:  Como você vê o caso do Estadão e a proibição imposta pela Justiça em relação à publicação de matérias sobre a família Sarney?

marcelomoreira: O caso do Estadão é um atentado contra a liberdade de imprensa. Infelizmente, o Brasil ainda vive de feudos onde os seus ‘senhores’ pensam estar acima do bem e do mal.

LucasSchwantes:  Por mais imparcial que tente ser uma reportagem, ela sempre vai pender pra algum lado do fato... Isso também não é uma forma de censura?

marcelomoreira: É difícil uma situação de 100% de imparcialidade. O repórter, por mais isento que seja, não consegue separar suas opiniões. Mas não considero censura. O importante é que um mesmo fato possa ser coberto por diversos veículos e, a partir de uma comparação, a gente possa formar a nossa própria opinião. 

LucasSchwantes:  Ou seja, a interatividade é uma ferramenta para combater a censura? Por exemplo, as redes sociais e os blogs, que por vezes expõe diversos focos em cima de um assunto...

marcelomoreira: Isso é ótimo. Hoje vivemos uma realidade onde todos podem se expressar para o mundo através de blogs, microblogs, redes sociais. O emissor da mensagem não depende mais do meio. Ele atinge diretamente seu receptor. E a nossa geração está aprendendo a conviver com isso. Hoje é possível saber o que pensa o presidente Barack Obama diretamente, sem que se leia pelos jornais ou se assista a uma entrevista pela TV. Basta entrar no twitter dele.

Marcos:  Pela primeira vez um site conseguiu ganhar o Prêmio Pulitzer, o site americano ProPublica.org. Só que a reportagem vencedora, sobre os estragos do furacão Katrina em um hospital de Nova Orleans, foi feita por uma repórter que levou dois anos e meio para apurar. O site é mantido por um bilionário. Tem como, no 'jornalismo comercial', ser realizada uma reportagem apurada durante meses, anos?

marcelomoreira: Eu estive há 15 dias em Genebra, participando da Global Investigative Conference. O editor do ProPublica falou em um dos painéis. Nos EUA proliferam sites independentes e dedicados ao jornalismo investigativo e o ProPublica faz matérias para quem quiser usar. Tudo que é publicado é livre para qualquer meio reproduzir. E eles são editores experientes que vieram de grandes veículos de comunicação. Eles entendem que o jornalismo investigativo está migrando para os sites e que a grande imprensa cada vez menos se dedica a grandes reportagens. Pode ser verdade, mas a grande questão ainda é o modelo econômico deste tipo de veículo. O ProPublica se sustenta porque tem um bilionário bancando e eles acabam quando este bilionário enjoar da brincadeira. O que eles buscam hoje é uma forma de se autosustentarem sem depender de um grande doador.

vanessa:  Como você disse, você participou, em abril, da Global Investigative Journalism Conference, na Suíça. Como foi a conferência? Fale um pouco sobre a sua entrevista com o autor da sapatada no Bush ...

marcelomoreira: A entrevista com o sapateiro foi muito bacana. Foi a primeira vez que eu conversei com um jornalista que viveu a guerra no Iraque e percebe-se o sentimento que eles têm pela ocupação americana. Estou tentando trazer ele ao Brasil para dar uma palestra no congresso da Abraji em julho. Precisamos de grana para trazer o cara.

samegui: O povo pode ser incitado a ser um cidadão 2.0 utilizando ferramentas como o ‘VC Repórter’ (do Globo, Terra, G1 e afins)?

marcelomoreira: O mundo hoje é 2.0. Temos milhões de ‘jornalistas cidadãos’ espalhados mundo afora munidos de celulares e câmeras. Hoje é possível ter acesso a flagrantes antes inimagináveis, um acidente em um trem, por exemplo, leva poucas horas para ter nas redações imagens do que aconteceu. Todo mundo que está no trem tem um celular, eles filmam e mandam. Isso é sensacional. Acho valiosíssimo o papel 2.0, mas isso não quer dizer que a grande mídia seja desnecessária. Elas ainda cumprem seu papel fundamental, que é o de apurar, informar, formar opinião, dar rumos. A imprensa está mais ativa do que nunca.

Nós da Comunicação:  Como o RJTV, jornal do qual você é editor-chefe, se beneficia da colaboração dos espectadores/internautas?

marcelomoreira:  O RJTV é um programa completamente aberto à participação do telespectador. A gente abre espaço cada vez maior aos vídeos colaborativos.

melly bressane:  Os jornalistas que estão se formando agora devem se preocupar com esse tipo de concorrência? Ou devemos ver isso como um complemento de nossas atividades? Hoje em dia o ‘furo de reportagem’ fica cada vez mais difícil.

marcelomoreira: Acho que a gente se aproveita desta colaboração para dar os furos. Acho que a gente dá mais furos inclusive graças à colaboração do leitor/telespectador/ouvinte. Já reparou como todo veículo hoje tem Twitter, Facebook, My Space, Orkut...?

samegui: Eu sou jornalista por formação, não defendo que a grande mídia seja substituída pelas redes sociais. Mas vejo que um dos possíveis caminhos é de alguns nichos do jornalismo serem agregadores e editores de conteúdo produzido pelo ‘jornalista cidadão’...

marcelomoreira: Concordo plenamente com você. O congresso em Genebra falou muito sobre isso. Hoje há uma explosão destes nichos, cada vez mais segmentados e produzindo conteúdo de muita qualidade. A cobertura da tragédia das chuvas é um exemplo ótimo. É impossível estar em tantos lugares ao mesmo tempo. Mas graças ao telespectador foi possível dar um panorama de toda a região do Rio e de Niterói. Graças aos vídeos colaborativos. Nosso apresentador Márcio Gomes fechou uma matéria só com imagens que ele mesmo produziu vindo para redação. Foi tão legal que foi parar no Jornal Nacional.

melly bressane:  Ainda mais que as equipes não tinham como chegar nos pontos mais críticos.

marcelomoreira: Nós mesmos tínhamos muita dificuldade de deslocamento. A gente fazia entradas ao vivo da porta da TV, de tão difícil que era chegar em algum lugar. Foi um caos. Mas foi também um grande exemplo de superação de todo mundo da equipe.

Daiane: Como você analisa a Ditadura Militar e o Brasil de hoje em termos de liberdade de imprensa? Hoje estaríamos vivendo algum tipo de abuso na mídia?

marcelomoreira: Não acho que estejamos vivendo nenhum abuso. A mídia é livre e cada um escolhe o que quer ler, ouvir, assistir. Se a mensagem é ruim, a gente tem a opção de mudar de canal.

maysamanoela: Interessante ver sua opinião sobre a multiplicidade de conteúdos, mas o que vemos é muita ‘mesmice’ nos telejornais...

marcelomoreira: Nossa luta é lutar contra essa mesmice, procurar entender o que as pessoas querem saber e transmitir o melhor conteúdo possível. Esse é meu desafio diário em cada 15 minutos que a gente exibe à noite. Mostrar naquele tempo o que aconteceu no Rio e que você gostaria de saber, meio como contar uma boa fofoca, bem interessante, mas que te seja útil.

vanessa: Hoje qual a região do Brasil em que o jornalista corre mais risco?

marcelomoreira: Acho que hoje o Nordeste é o nosso México. O Rio é um lugar atípico. Vivemos numa região onde a cobertura doméstica do dia a dia envolve risco. É pior do que o caso de repórteres que vão para a guerra, porque aqui a gente mora no lugar que já é perigoso. Mas isso está mudando.

maysamanoela: O que mudou de dez anos para cá e como será o jornalismo em 2020?

marcelomoreira:  Em dez anos, o mundo mudou. A velocidade da tecnologia é arrasadora, e o jornalismo segue essa tendência. A internet barateou custos. Hoje é possível, a custo baixo, ter repórteres espalhados no mundo inteiro e conectados via skype. Isso é maravilhoso, mas é impossível prever. Com banda larga cada vez maior, ferramentas de captação de imagens. Será que a gente vai poder assistir vídeos colaborativos nos jornais impressos?

daiane:  Você acha que a forma de fazer jornalismo vai mudar e a internet vai tomar algum espaço da televisão ? 

marcelomoreira: A internet é um novo meio de mídia, que veio para ficar, assim como o próprio rádio e a TV. Ela junta tudo. E claro que vai ter uma nova arrumação, mas todo mundo tem seu espaço. A forma de fazer jornalismo é dinâmica, todo dia a gente aprende uma coisa nova. Ver um programa de dez anos atrás parece entrar na pré-história.

Nós da Comunicação:  Como é sua rotina lá no RJTV 2ª edição?

marcelomoreira:  Eu acordo e vou direto para a leitura dos jornais. Faço isso ouvindo CBN e Band News. Chego aqui às 11h e preparo o plano de vôo do jornal. Às 13h, tem reunião com a equipe e a distribuição de pautas. Durante a tarde preparamos o jornal, exibido às 19h. Depois, reunião para avaliação e cuidar do dia seguinte. Depois um chope, né? Ninguém é de ferro. Cansei de sair do bar cheio de pautas. À noite, internet até enjoar.

maysamanoela: E a produção é pautada pelo factual ou tem muita matéria produzida?

marcelomoreira: É uma mistura. Temos matérias produzidas e também as factuais. Minha meta é sempre ter um assunto nosso. Para diferenciar e escolher o melhor que a cidade tem para oferecer ao telespectador. Tudo demais enjoa. Muita matéria de polícia deixa o jornal sangrento. Não gosto. Cultura é bom, mas também não pode ser o jornal inteiro. Um bom jornal pra mim tem que ter um pouco de tudo: polícia, cidade, cultura, esporte. Cada dia é um dia. No dia seguinte ao hexa do Flamengo, o RJTV teve 15 minutos de Flamengo. Tem como ser diferente?


Os contatos do Marcelo são: moreira.marcelo@gmail.com e o Twitter @mmoreira1.

 


COMENTÁRIOS( 1 )





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XXX

Thiago Cristiano da Silva       12/5/2010 18:51:36
Legal,participei do chat e fui muito produtivo e poder revisar as melhores perguntas, vai reforçar o que aprende hoje!!!valeu!!!e parabéns mais uma vez por esses 2 anos.