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Entrevistas

22/9/2011

CICLO COMUNICAR ECONOMIA CRIATIVA

Lala Deheinzelin: ‘O Brasil não tem políticas favoráveis à economia criativa’

André Bürger

  
 
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Lala Deheinzelin é CEO da Enthusiasmo Cultural

Uma das pioneiras no Brasil quando o assunto é economia criativa, Lala Deheinzelin é CEO da Enthusiasmo Cultural, empresa especializada em estratégias voltadas para economia criativa, cultura e desenvolvimento. Lala tem prestado consultoria para governos, ONGs e agências de desenvolvimento nacionais e internacionais. Já esteve em diversos países como China e Moçambique, país em que ajuda a implantar a economia criativa. (Confira entrevista em vídeo)

Desde 2005, Lala é Senior Advisor da Unidade Especial de Cooperação Sul-Sul das Nações Unidas. Além disso, desenvolve um projeto no Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) visando preparar a instituição para atuar em novos cenários em que a economia criativa ganha cada vez mais relevância.

Para a executiva, apesar de o Brasil ter bons empreendedores criativos, seus governantes ainda não consideram como prioridade estratégica o patrimônio baseado em valores intangíveis. “É preciso investir na educação. Esse é o futuro. Essa deveria ser a prioridade do país”, ensina.

 

Nós da Comunicação – Por que a economia criativa focada nos valores intangíveis é uma solução sustentável?
Lala Deheinzelin –
Primeiro, porque esses valores intangíveis são abundantes. Não é possível falar em sustentabilidade e seguir com uma economia baseada em recursos finitos. O planeta é um só. Uma nova economia que tenha como eixo central esses recursos intangíveis é estratégica para o sucesso da sustentabilidade. Um exemplo claro disso é a economia da experiência, hoje um grande motor. Por isso, turismo e entretenimento, setores dentro da economia criativa, crescem, atualmente, seis vezes mais que outros setores.

É válido destacar que os países do Hemisfério Sul, que estão em via de desenvolvimento, ainda têm em abundância tanto recursos naturais quanto diversidade cultural. Essa combinação representa muitas possibilidades no futuro e vão significar mudanças econômicas e de poder no cenário mundial.

Recursos abundantes ganham outro significado e têm a capacidade de se multiplicar infinitamente. Nesse cenário, a economia é baseada em um modelo de cooperação. Quando os recursos materiais são finitos, o modelo é de competição, e a economia é, por definição, uma gestão de recursos escassos. Acredito que uma tendência no futuro é que as indústrias possam compartilhar matéria-prima, equipes e máquinas. O que vai diferenciá-las serão seus valores e conceitos.

Nós da Comunicação – De que forma as quatro dimensões da sustentabilidade podem dar suporte para o desenvolvimento da economia criativa?
Lala Deheinzelin –
As quatro dimensões são: Ambiental, Econômico, Social e Cultural. Esse último vem sendo considerado desde a realização da Agenda 21 e nele está incluído todo patrimônio da diversidade cultural. Quando temos que criar um processo, essas dimensões servem de parâmetro para o quão bem sucedido ele poderá ser em longo prazo. Para ser sustentável é preciso atuar nas quatro dimensões. A combinação da sustentabilidade com a economia criativa e com novas tecnologias vai conduzir a uma espécie de reinvenção da economia.

Só provocará toda mudança que promete quando a economia se ampliar. Vivemos em um mundo multidimensional que ainda funciona num padrão linear, que só considera questões quantitativas, numéricas e econômicas. Por enquanto, não existe forma de medir a diversidade cultural, um dos nossos maiores patrimônios. A partir dela se constrói tudo. As quatro dimensões dão uma direção para onde devemos criar novas formas de avaliação e até novas moedas. Na verdade, essas quatro dimensões são as próximas moedas.


Nós da Comunicação – No encontro ‘Rio, Design e Indústria’ realizado em junho deste ano, você comentou os avanços da China no campo da economia criativa. O que impede o Brasil de estar nesse nível?
Lala Deheinzelin –
A China desenvolveu uma estratégia de longo prazo. Em 1988, eles chegaram à conclusão de que a inovação era fundamental para o país. Criaram, então, uma quantidade absurda de incubadoras. Os chineses sempre procuraram equilibrar os investimentos em tecnologia hard e tecnologia soft. Durante os preparativos para a Expo2010, realizada em Xangai, enquanto estavam construindo as edificações, ao mesmo tempo, faziam o treinamento dos jovens que trabalhariam na feira.

Outro ponto é a política. O Brasil tem bons empreendedores criativos, mas não tem políticas favoráveis à economia criativa. Por ter um poder centralizado, a China criou essas políticas e conseguiu segui-las. Ela criou toda uma estrutura de apoio às incubadoras, formação profissional e financiamento. Deu certo porque isso foi prioridade do governo.
 
No mercado brasileiro ainda não consideramos como prioridade estratégica o patrimônio baseado no intangível. É preciso investir na educação. Esse é o futuro. Essa deveria ser a prioridade do país. E é justamente esse trabalho que estamos realizando em parceria com o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), que está se preparando para trabalhar nesse contexto. Concluindo, os países em que a economia criativa avançou muito são justamente aqueles que perceberam e a colocaram como prioridade.

No Brasil, para seguir em frente, precisamos de um alinhamento entre Estado e iniciativa privada. A falta de continuidade de governo é outro fator que sempre atrasou a evolução do Brasil nesse aspecto. Na China, avança porque é política de Estado colocada em prática.

Nós da Comunicação – Mas não é um paradoxo, que logo a China, uma ditadura que não costuma respeitar a questão dos direitos autorais, seja tão exemplar em economia criativa?
Lala Deheinzelin –
A questão do direito de autor é muito complexa. Direitos de autor não necessariamente facilitam a economia criativa. Em minha opinião, o conhecimento deve circular e quanto mais isso acontecer, mas se cria a partir dele. Acredito que a atual lei de direitos autorais deveria ser repensada. Dessa forma, o conhecimento se ampliaria mais. O direito de autor não é favorável, pois sempre criamos a partir de alguma coisa. O conhecimento se constrói a partir de outro conhecimento. Acredito que o pagamento deva ser em outra moeda. Na China há uma cultura do coletivo. O que existe de interessante lá é que o país coloca como prioridade a economia criativa mesmo não tendo uma expressão criativa tão favorecida. Acredito que isso vai acabar fazendo com que o país se transforme.

Nós da Comunicação – Naquela palestra, você falou que “o futuro é algo que semeamos no imaginário”. Como estimular a participação dos jovens estudantes brasileiros na Economia criativa?
Lala Deheinzelin –
O primeiro passo é preparar terreno e divulgar os conceitos de economia criativa. É preciso informar esses jovens sobre as possibilidades nos setores. Entretanto, a formação ainda é baseada nos valores do passado e realizada de forma setorizada, enquanto a economia criativa é transversal. No mercado brasileiro, a formação ainda está defasada. Precisaríamos criar microincubadoras de inovação para proporcionar um ambiente favorável para os jovens.

Os valores intangíveis são a chave para os negócios criativos. O mundo é finito, mas os bits, as novas tecnologias, não. Quando a diversidade cultural é agregada às tecnologias, tem como resultado a produção em rede e todas as possibilidades de novos modelos de negócio. A economia criativa é uma solução não apenas para os estudantes. Recentemente, um jovem foi notícia porque estava lançando seu quinto aplicativo para celular. Um deles era sobre Machado de Assis. Essa combinação vai possibilitar a estruturação de novos modelos de negócio por meio da colaboração. Crowdsourcing é um exemplo disso.

Clay Shirky, especialista em produção colaborativa, fala de um termo chamado Excedente Cognitivo. Segundo ele, a partir da possibilidade de estar em rede e conectado, é possível construir colaborativamente. A questão do jovem é empoderá-lo e criar um mínimo de ambiente para que possa criar por conta própria.

Nós da Comunicação – Quais diferenças entre o modelo brasileiro de economia criativa e o adotado em outros países da América Latina?
Lala Deheinzelin –
Diferentemente do modelo inglês, no contexto da América Latina e do Brasil, não existe a ideia de que a propriedade intelectual é uma moeda. A visão é muito mais focada no território do que nos setores. O modelo aplicado no Brasil foi desenvolvido a partir da análise das melhores práticas brasileiras. Aqui na América Latina trabalhamos pensando no que temos disponível, não no que está faltando. Dessa forma, usamos o que se tem de forma diferente.

O Programa Cultura Viva, do Ministério da Cultura, é muito interessante nesse sentido. Não precisa criar um novo centro cultural para realizar sua programação, ele utiliza os aparelhos e estruturas existentes. Precisamos elaborar produtos que se utilizem daquilo que já existe.

Já o modelo inglês, baseado na proteção intelectual, é parecido com o modelo norte-americano. Nos Estados Unidos, uma porcentagem importante da economia são as grandes empresas de cinema e entretenimento que vivem de royalties. Os direitos autorais são muito bons para a grande maioria, segundo estudiosos. Entretanto, ainda não está comprovado que seja realmente bom para os criadores e autores.


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