André Bürger
No começo do século XX, entre 1909 e 1919, o Brasil produziu e distribuiu para países dos continentes americano e europeu a 'Revista Americana', publicação com textos de escritores brasileiros e estrangeiros. Em artigos, e até poemas, o objetivo era difundir valores culturais e promover a integração entre as nações sul-americanas.
Quase um século depois do fim da revista, Fernando Vale Castro, professor de 'História da América' na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), lança o livro 'Pensando um Continente: a Revista Americana e a criação de um projeto cultural para a América do Sul' (Editora Mauad X), com a proposta de analisar a importância do periódico no cenário político-cultural da época. "A revista foi um primeiro esforço de intercâmbio e cooperação intelectual. A publicação permitiu fortalecer o terceiro pilar da diplomacia externa: o cultural", analisa o professor e autor.
Nós da Comunicação - Qual o principal objetivo do Ministério das Relações Exteriores com a distribuição da 'Revista Americana' e quais países receberam a publicação?
Fernando Luiz Vale Castro - Um dos objetivos da publicação era ser um espaço imparcial de divulgação de determinadas ideias e de conhecimento mútuo entre os países da América, especialmente os da América do Sul. A revista trazia, em sua maioria, textos de autores sul-americanos. Era um espaço de debates intelectuais e ideias divergentes, e nunca foi um veículo doutrinário.
Um dos editoriais da revista, em 1918, afirmava que, em um primeiro momento, a 'Revista Americana' não tinha vínculo direto com ninguém da alta cúpula do Ministério. Entretanto, analisando seu conteúdo, percebemos os valores da diplomacia do Barão do Rio Branco como pano de fundo. Ele foi o grande incentivador da publicação.
O periódico se insere em um cenário que vai além do Ministério. Era um contexto em que o mundo, de modo geral, pensava nas revistas políticas e culturais como espaço de sociabilidade dos intelectuais do período. Esse tipo de publicação circulava na elite. 'A Revista Americana' era distribuída para centros acadêmicos, sociedades literárias e ministérios dos outros países.
A revista foi um primeiro esforço de intercâmbio cultural e cooperação intelectual. A diplomacia estava começando a mudar alguns de seus paradigmas que seriam transformados ao longo do século XX, mas a revista não chega a ser um exemplo de diplomacia cultural, pois o conceito ainda não existia na época. Entretanto, a publicação permitiu fortalecer o terceiro pilar da diplomacia externa: o cultural. Para se relacionar é preciso conhecer o outro. Os outros dois pilares são o político e o econômico.
De acordo com dados da própria revista, exemplares eram enviados para todos os países da América do Sul, além de Portugal, França, Espanha, Estados Unidos e México.
Nós da Comunicação - Podemos dizer que o Brasil segue até hoje essa questão da diplomacia cultural, procurando o diálogo com as outras nações?
Fernando Luiz Vale Castro - Quando pensamos o projeto de diplomacia brasileira, notadamente a partir da criação do Instituto Rio Branco, nos anos 1940, percebemos a questão cultural como peça-chave na formação de nossos diplomatas que, em minha opinião, têm uma cultura geral muito acima da média de outros países. Essa formação mais humanista é uma preocupação do Itamaraty e um paradigma central da diplomacia brasileira. Pensando o continente americano, nossa política externa sempre buscou reforçar a integração do país à região. Historicamente, o Brasil sempre foi visto como uma exceção dentro da América. Coube à diplomacia romper essas fronteiras invisíveis.
Nós da Comunicação - Em relação ao conteúdo da revista, algum país da América Latina recebeu especial atenção? Por quê?
Fernando Luiz Vale Castro - A grande oposição que se deu na revista - que refletia à oposição política no continente - era à Argentina. É importante salientar que era um momento de consolidação das instituições republicanas no Brasil. A República tinha sido proclamada há pouco tempo. Outro aspecto era a tentativa do país de se consolidar no continente. Nesse sentido, o grande embate, tanto no nível político quanto das ideias, era com a Argentina.
Muitos argentinos eram convidados a escrever na 'Revista Americana', inclusive com opiniões divergentes dos brasileiros e até do Ministério das Relações Exteriores do Brasil. Ao mesmo tempo, havia a preocupação em estabelecer parâmetros comparativos entre os dois países. Havia sim espaço para comparações, mas, nesse sentido, a Argentina era o grande foco.
Nós da Comunicação - Que autores se destacaram com artigos na revista e quais foram os temas mais abordados por eles?
Fernando Luiz Vale Castro - Alguns autores contribuíram mais do que outros. Os mais conhecidos foram os brasileiros Rui Barbosa e Clóvis Beviláqua. Entre os estrangeiros citaria o peruano Francisco Garcia Calderón e o uruguaio José Enrique Rodó. Vários temas, desde a filosofia à poesia, apareceram ao longo da história da revista. Havia inegavelmente muitos temas importantes. Posso destacar o pan-americanismo, absolutamente em voga naquele momento, direito internacional e soberania. Hegemonia e soberania eram tratadas do ponto de vista mais filosófico, fazendo comparações e se contrapondo à Europa. O continente americano era então o lugar do novo. Um espaço de renovação
Nós da Comunicação - Em sua opinião, quais foram os maiores benefícios que a política de diplomacia cultural, visando à difusão de aspectos culturais entre países, trouxe para o Brasil?
Fernando Luiz Vale Castro - Primeiro, marcar uma identidade na nossa diplomacia e estabelecer certa visão positiva dos outros países em relação ao Brasil. A leitura que se faz do país, ao longo do século XX, é que o Brasil é uma nação aberta ao diálogo, aberta a negociações de paz etc. O Brasil sempre quis ser reconhecido como tal. Com a publicação, sua equipe tinha a preocupação de pensar o direito internacional americano, que é fundamentalmente pacifista. Levando-se em consideração que a revista começou a circular no período anterior à Primeira Guerra Mundial, um momento altamente belicoso, percebemos que a defesa desse ideal diplomático sul-americano acabou sendo um posicionamento claro de que sua contribuição era a perspectiva de paz.
Nós da Comunicação - A diplomacia é uma questão de comunicação e diálogo entre diferentes partes. Levando-se em consideração que a revista era feita pelo Brasil, houve alguma resposta ou manifestação dos outros países em relação à publicação?
Fernando Luiz Vale Castro - Já existiam publicações desse tipo em outros países. Na própria Argentina, era publicada a revista 'Derecho, Historia y Letras', fundada em 1898. Na Europa também circulavam outros periódicos sobre a América. No Brasil, a 'Revista Americana' era inédita. Naquele contexto, havia incentivo para esse tipo de publicação em que eram divulgados lançamentos de livros, informações e comentários sobre a publicação. Era o formato de circulação de ideias à época.
Nós da Comunicação - Nos anos 60, durante a Guerra Fria, as revistas 'Life' e 'O Cruzeiro' serviram de ferramentas em divergências entre Estados Unidos e Brasil. Em algum momento de sua trajetória, a 'Revista Americana' foi usada com propósito parecido?
Fernando Luiz Vale Castro - Diferentemente de revistas como 'Life' e 'Cruzeiro', sobretudo publicações que surgiram após a Segunda Grande Guerra, a 'Revista Americana' tinha como objetivo a perspectiva do diálogo. A relação entre América do Sul e Estados Unidos teve grande destaque no início do século XX. Os EUA estavam se consolidando como potência e estabelecendo uma política externa muito agressiva para a América Latina. Como a revista era de opinião, com reflexões de intelectuais, eram sempre apresentados os dois lados da história. Havia posições favoráveis e contrárias a uma possível aproximação com os Estados Unidos.
Nós da Comunicação - Atualmente, com os diversos meios de comunicação multiplataformas, e a facilidade de encontrar informações sobre diferentes nações, você acha que existiria espaço para um periódico nos mesmos moldes da 'Revista Americana'?
Fernando Luiz Vale Castro - A essência, que é o debate de ideias, deve ser mantida e cada vez mais buscada. Claro que a comunicação multiplataforma facilita o diálogo. Cabe a nós, a partir desses instrumentos, estabelecer uma conversa democrática, com espaço para as diferenças. Evidentemente, nos moldes da 'Revista Americana' não há mais espaço, nem necessidade. A forma mudou, mas a proposta do diálogo deve estar presente.