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Entrevistas

24/4/2012

BRANDING

Rodolfo Araújo: 'A marca é a principal simbologia da cultura da empresa'

André Bürger

  
 
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Rodolfo Araújo é gerente de conhecimento da Edelman Significa Brasil

Independentemente do tamanho de uma empresa, seja uma multinacional ou uma empresa familiar, as estratégias de branding devem ser levadas em consideração desde o início da trajetória do empreendimento. Para Rodolfo Araújo, gerente de conhecimento da Edelman Significa Brasil, "a marca é um patrimônio de todas as equipes."

Em entrevista ao Nós da Comunicação, o executivo que também é professor de estratégia de marcas e gestão da complexidade na Business School São Paulo falou sobre a trajetória da grife de óculos escuros e acessórios Chilli Beans. Ele é coautor do livro 'E se colocar pimenta? A história da marca mais quente do Brasil. Sem cortes' (Editora Campus Elsevier, 2012), escrito com Caito Maia, fundador da empresa criada em 1997.

Nós da Comunicação - O livro aborda três fases da existência de uma marca: 'sobrevivência no mercado', 'decolagem' e 'vida adulta'. Qual dessas três etapas requer maior atenção dos gestores de branding?
Rodolfo Araújo -
Todas são importantes, porém exigem atenções diferentes. É saudável que se tenha consciência do potencial da marca desde o início. E esse foi um dos méritos da Chilli Beans: ter uma marca como uma lente para enxergar o mundo. Nessa primeira fase, quando toda a empresa busca sobreviver no mercado, a organização precisa entender qual a importância dela no mundo e se perguntar: se ela não existisse, que falta faria?

Essa crença é o elemento qualificador do discurso que ela vai adotar para atrair clientes e fortalecer seus laços. O empreendedor, mais do que uma pessoa que sabe viabilizar um negócio, tem que ser alguém capaz de conduzir e inspirar todos os colaboradores a crescer com a companhia.

A partir do momento em que você alcança uma 'velocidade de cruzeiro' - que é a segunda etapa - é possível se preocupar ainda mais com o crescimento da sua imagem corporativa. Do ponto de vista do empreendedor, você já não tem mais controle total sobre o negócio, pois ações já foram delegadas a outros. Entretanto, é fundamental ter consciência de todas as atividades da organização, de tudo aquilo que é comunicado internamente ou fora da empresa.

No momento da 'vida adulta', a empresa já não funciona mais em um esquema com áreas separadas, mas como uma rede integrada, cujo elemento agregador é a marca que, nesse momento, já não pertence mais a um departamento específico. É um patrimônio de todas as equipes. Teoricamente todos os colaboradores que estão ali estão comprando a ideia. É um estágio que contamina a todos, dentro e fora da empresa. O ponto principal é manter essa vitalidade suficiente para que a marca seja percebida.

Nós da Comunicação - Quais os pontos fundamentais que um empreendedor deve levar em consideração no projeto de criação de uma marca?
Rodolfo Araújo -
O primeiro ponto é a inspiração: aquilo que o motiva. Assim, é possível desenvolver a marca com mais facilidade. Em seguida, o empreendedor tem que estar consciente que esse propósito não se limita a um logo, um nome ou posicionamento. Pelo contrário, deve permear todas as rotinas e experiências que uma organização proporciona. O empreendedor é o principal guardião desse significado e responsável por compartilhar esses valores com todos os colaboradores que atuam na organização.

Os valores da marca são levados em consideração quando a organização se posiciona, faz uma ação ou realiza qualquer investimento. É preciso verificar se esse posicionamento tem ou não a ver com a marca. É um processo de conscientização. Tendo noção dessa identidade, o empresário vai aprendendo como fazer a gestão da imagem de sua organização se tornar realidade.

Nós da Comunicação - Cada vez mais, as empresas se preocupam com seu capital humano. Podemos dizer que, no fundo, a marca de uma organização está diretamente ligada às práticas de gestão de pessoas e também à postura de seus colaboradores?
Rodolfo Araújo -
O conceito vai além disso. A marca é a principal simbologia da cultura de uma organização, agrega as pessoas. É muito mais importante que qualquer organograma ou hierarquia. Faz toda a diferença quando uma empresa dá um peso maior à sua imagem corporativa e não ao seu organograma. Consequentemente, as pessoas se mobilizam com mais facilidade.

O papel dos profissionais de recursos humanos é fazer com que as pessoas entendam, cada vez mais, o propósito da marca. Empresas como Lego, por exemplo, têm escolas em que os funcionários são capacitados para entender e fazer julgamentos sobre esse mérito. Num segundo estágio, os colaboradores passam a viver a marca, aliada a sua crença.

A partir do momento em que a cultura é muito forte, rapidamente conquista os consumidores. Se hipoteticamente a Harley Davidson perder sua sede, fábricas e lojas, a marca não vai morrer nem os consumidores vão minguar. Muito pelo contrário, ela poderá ficar ainda mais forte.

Uma cultura forte internamente motiva os colaboradores a trabalharem da melhor forma possível e de maneira mais espontânea. Ao fazermos o melhor, podemos oferecer uma rica experiência não só para clientes, mas também para todos os outros stakeholders. A partir do momento que isso é feito com verdade é percebido pela sociedade, gerando um vínculo ainda maior.

Nós da Comunicação - A Chilli Beans está há mais de dez anos no mercado de óculos e acessórios. No livro, vocês falam do jeito próprio da empresa gerir seu negócio. Qual é esse diferencial?
Rodolfo Araújo -
No caso da Chilli Beans, acho que foi feito de uma maneira muito espontânea. Principalmente nas duas primeiras etapas. Não havia metodologia alguma. Aos poucos, a empresa teve que lutar para se estruturar e ganhar outros ares, abrindo franquias e visando uma perspectiva nacional. A partir desse momento, começou a perceber seu potencial de negócio. A empresa conseguiu sobreviver às duas primeiras fases graças à força do seu nome. Já madura, conseguiu aliar a força da marca com experiência de mercado.

Nós da Comunicação - Alexandre Herchcovitch e Isabela Capeto são alguns exemplos de estilistas que assinam óculos da marca. Qual o objetivo da Chilli Beans com essas parcerias, que têm se tornado cada vez mais frequentes?
Rodolfo Araújo -
É uma relação de co-branding. Esses estilistas têm atributos que dialogam com os atributos da marca, além de qualificar os óculos e acessórios que eles assinam. De alguma maneira, seus produtos falam a mesma linguagem. Se não houvesse sintonia não daria certo e o público não compraria os produtos. Quando se associa a esses profissionais, a empresa também está ampliando o potencial de percepção e qualificando ainda mais seus produtos. Dessa forma, vai se posicionando não só como uma empresa de óculos, mas também como de acessórios de moda. A Chilli Beans não precisa mais vender apenas óculos para se firmar perante o público, pode vender meia, bicicleta, relógios etc.

Nós da Comunicação - No mercado de óculos, em comparação com outras marcas, a Chilli Beans pode ser percebida como uma marca mais acessível, inclusive para jovens. Qual o posicionamento da marca para o mercado brasileiro e qual proposta para outros países?
Rodolfo Araújo -
Hoje ela não é mais reconhecida somente pelo preço, mas pelo estilo e significado. Alguns acessórios não são tão baratos assim. E mesmo com preços mais altos, as pessoas não deixaram de comprar. Quando os consumidores se identificam com o propósito da empresa, o preço passa a agregar mais ao significado subjetivo da marca. As pessoas realmente criam uma simpatia muito grande quando entram em contato com o universo da marca.

Em relação ao preço, pode ser necessário fazer um ajuste em cada país, mas as pessoas não se apaixonam pelo preço, mas pelo que a empresa traz por trás do discurso: que é agregador e, acima de tudo, humano. A Chilli Beans, no que se refere ao preço é democrática, pois sempre vai existir para todo mundo. O design é fundamental. O relógio não é um 'marcador das horas', mas um acessório de moda. Entretanto, o posicionamento será sempre o mesmo até para ter a coesão necessária para o reconhecimento global.

A Chilli Beans procura trazer em seus produtos toda a sua história. Por isso, eu volto àquela questão de que a marca não pertence mais a um departamento específico, é um patrimônio de toda a empresa. A companhia acredita que todos os funcionários podem ser eles mesmos. Consequentemente, os colaboradores trabalham de forma muito mais eficaz.

Nós da Comunicação - Você é especialista em branding e já trabalhou como consultor de gestão pública. Que diferenças poderíamos abordar entre a gestão de marcas nos setores público e privado?
Rodolfo Araújo -
Acho que essas diferenças ainda não estão em pauta. Temos problemas muito mais importantes para resolver. Primeiro é necessário repensar princípios, como respeito ao cidadão e práticas transparentes, por exemplo. Só depois é possível pensar em práticas de gestão. O setor público ainda está em um setor muito primário ainda.


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