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Entrevistas

27/4/2012

CULTURA

Marcia Carmo: Uma observadora atenta da América do Sul

Sônia Araripe, para Balaio de Notícias

  
 
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Capa do livro 'Guia América do Sul - uma viagem para brasileiros'

O arquivo com dezenas de passaportes, credenciais e documentos é só uma pequena amostra da relevância do trabalho da jornalista Márcia Carmo nos últimos anos, como observadora muito atenta dos últimos importantes movimentos ocorridos na América Latina. A carioca, nascida e crescida perto do mar, se acostumou à vida de correspondente internacional.

Trabalhou por anos no 'Jornal do Brasil' e hoje em dia é colaboradora free lancer para várias publicações relevantes, como a 'BBC Brasil'. Viajar e trabalhar até de madrugada já fazem parte de sua rotina. Agitada, engajada e, acima de tudo, sempre bem humorada, Márcia cativa fontes e arranca notícias e informações marcantes. Foi assim, por exemplo, com Maradona e com o ex-presidente Carlos Menem, apenas para citar alguns personagens recentes.

Morando há cerca de 15 anos em Buenos Aires, sente-se muito à vontade nos cafés e muitas praças da cidade. Mas é, sem dúvida, para as tortuosas estradas da América do Sul que sempre acaba regressando. O guia América do Sul, uma viagem para brasileiros (Editora DBA), lançado na Livraria da Travessa, em Ipanema (Zona Sul do Rio), dá dicas e também conta curiosidades da região tão exuberante quanto peculiar. Por conta do lançamento, Marcia esteve no Programa do Jô, no Globo News em Pauta e também na CBN.

Justamente uma semana antes do vernissage, "explodiu" a polêmica decisão da Presidenta Cristina Kirchner de expropriar a Repsol-YPF. Foi neste pique frenético que Márcia ainda encontrou tempo para dar esta entrevista, por email, especial para o Balaio de Notícias.

Balaio de Notícias - Este não é seu primeiro livro. Antes teve o Argentina, mitos, manias e milongas (Editora Planeta), com a também jornalista Monica Yanakiew e o Guia Buenos Aires para brasileiros, com a jornalista Cláudia Trevisan, pela Editora DBA. Como surgiu a ideia deste livro agora?
Márcia Carmo -
A ideia deste livro surgiu diante do número crescente de brasileiros que estão viajando pelos países da região. Somente entre Brasil e Argentina são realizados duzentos e vinte e oito voos semanais. Moro aqui em Buenos Aires há doze anos, desta vez. Morei três anos entre 1995 e 1998. Naquela época, na minha primeira temporada, não existia essa ligação tão forte entre o Brasil e seus vizinhos. Agora, o turismo brasileiro na América do Sul foi multiplicado e o mesmo ocorre com investimentos brasileiros nos países vizinhos. Ou seja, pensei, preciso contar como são eles e oferecer as dicas que conheço nesta longa jornada pela nossa vizinhança. Daí surgiu a ideia do livro - um guia.

Balaio de Notícias - Cada capítulo é dedicado a um país. Conte a história da Argentina para os leitores.
Márcia Carmo -
O guia América do Sul, uma viagem para brasileiros reúne oito capítulos e cada capítulo é dedicado a um país que visitei pelo menos quatro ou cinco vezes. São eles, Argentina, Bolívia, Chile, Colômbia, Paraguai, Peru, Uruguai e Venezuela. Cada país tem pelo menos uma marca curiosa em seu comportamento. Por exemplo, os homens argentinos se beijam e entre os mais jovens e mais modernos, além do beijo - no rosto - vai um tapinha no bumbum também. Mas esse gesto carinhoso não gera fofoca ou comentários, de forma alguma. É da cultura local. Outro fato interessante. Buenos Aires tem - junto com Montevidéu, no Uruguai - a melhor qualidade de vida da América Latina, segundo diferentes levantamentos internacionais. Mas aqui o que mais ouço é: Che, que haces acá? Quer dizer, "Cara o que você está fazendo aqui?" Os argentinos AMAM o Brasil e admiram muito os brasileiros. O que não era notado aqui nos anos noventa. Os mais jovens então são fascinados pelo Brasil. Mas essa admiração por nós é observada em todas as idades. A minha percepção é que muitas vezes os brasileiros criticam, aqui mesmo, os argentinos, e eles estão com outro sentimento em relação aos brasileiros.

Balaio de Notícias - E o caso da Venezuela e suas misses que você aborda no livro?
Márcia Carmo -
O título do capítulo da Venezuela é "Caribe, Petróleo e Celeiro de Miss Universo". É um lugar onde é mais barato encher o tanque de gasolina do que pagar por uma garrafa de água. Lá tudo é importado. E ser Miss é o sonho de grande parte das crianças, adolescentes e adultas. Existem cursos para que a meta seja alcançada. É bem curioso para nós, mas é muito normal para eles que torcem mais para miss do que para futebol.

Balaio de Notícias - Você se divertiu escrevendo o livro?
Márcia Carmo -
Muito. Ri sozinha várias vezes. Bom, né? Não ri deles, jamais. Mas de como somos diferentes, apesar de sermos vizinhos. Ou seja, vizinhos pouco conhecidos e que agora estão sendo apresentados com mais intensidade uns aos outros.

Balaio de Notícias - O brasileiro médio conhece ainda muito pouco os países vizinhos. Felizmente, nos últimos anos isso tem mudado. Mas, na melhor das hipóteses, a maior parte dos brasileiros esteve somente na Argentina ou, se foi um pouco mais longe, no Chile. Poucos visitam o Peru, Equador, Colômbia... O Brasil, na sua opinião, poderia se integrar mais com os vizinhos? Eles gostam de brasileiros?
Márcia Carmo -
Eles AMAM brasileiros. Somos sinônimo de alegria, de conciliação diplomática, da sexta maior economia do mundo. E quando tento explicar que ainda falta muito, que temos problemas sociais e tal, muitos por aqui respondem: ah, mas vocês são alegres, resolvidos e encontraram um caminho no mundo, são BRICS, têm pré-sal e vão realizar a Copa do Mundo e as Olimpíadas.

Balaio de Notícias - Que roteiro você faria para um turista interessado em zerar esta pendência e conhecer mesmo a América do Sul? Quais seriam os lugares imperdíveis?
Márcia Carmo - 
A região tem belezas únicas no mundo. Patagônia, Caribe, Machu Picchu. Os europeus e americanos viajam mais de dez horas de voo para chegar a estes lugares e nós estão muito mais próximos. Na Patagônia argentina, destaco Bariloche (para os argentinos é Brasiloche, devido à forte presença de brasileiros no inverno) e, no Chile, os lagos chilenos. São paisagens lindíssimas. Minha sugestão é começar por Buenos Aires, passar aqui pelo menos três dias. Seguir de barco para Colônia e Montevidéu, no Uruguai, e dali Punta del Este, também no Uruguai. Depois, por exemplo, Santiago, que está muito moderna, e percorrer vinícolas - dá pra sair dali de metrô para as vinícolas. Dali, outro avião, para Lima, no Peru. O nome deste capítulo é "Delícias peruanas". A gastronomia peruana merece a fama de a melhor da América do Sul. Dali para o santuário de Machu Picchu. Eu achava que era papo furado quando diziam que ali tem alguma energia especial. Mas ao chegar lá também me arrepiei. É impressionante.

Enfim, opções não faltam e podem incluir esqui na Argentina ou no Chile e salsa e rumba na Venezuela e na Colômbia. E para você já desembarcar sabendo como falam e se comportam também abordei os temas nestes capítulos. Ou seja, é um guia de viagem e para viagem. Você já sai de casa sabendo o que dizer e como se comportar na vizinhança.

Balaio de Notícias - E que dicas básicas você dá em seu livro?
Márcia Carmo -
Dicas de restaurantes, de hotéis, de passeios. Dicas do que comer, do que beber. Vinhos, piscos, cervejas locais. Carnes, frutos do mar, sobremesas - como a preferida de Vargas Llosa no Peru e a terra que inspirou Garcia Marquez na Colômbia. Dicas de como pedir de comida a cobertor em espanhol e explicações rápidas e deliciosas de por que é tão fácil derrapar no portunhol.

Balaio de Notícas - Você é correspondente há muitos anos. Que coberturas mais te impressionaram ao longo destes anos? Que viagem mais te marcou na América Latina?
Márcia Carmo -
Sou correspondente desde 1995. A cobertura da ocupação da embaixada do Japão em Lima, em 1996, me marcou muito. Foram meses de expectativas para saber se os reféns e os guerrilheiros sobreviveriam ou não. Hoje, lá onde estava aquela casa inspirada no filme E o vento levou fizeram uma quadra de esporte. Não restou nada. Me impressionou muito também a cobertura do último terremoto no Chile, em 2010. Estava lá quando a terra tremeu com a mesma intensidade que no Haiti, um pouco antes. Aprendi como tentar não entrar em pânico e por que os chilenos são tão bem treinados para esta situação. O Chile e o Peru são países sísmicos e é legal saber coisas básicas como ter documentos sempre contigo e abrir as portas da casa ou do quarto do hotel quando o tremor começa. Enfim, cobrir a região é sinônimo de prazer e de emoção.

Balaio de Notícias - Que análise você faz hoje da situação político/econômica na América do Sul?
Márcia Carmo -
Neste período democrático, a região vinha sendo marcada por intensas trocas de presidentes que não concluíam seus mandatos, por inflação. Mas neste século, com o boom econômico e maior maturidade política percebo que, apesar de um ou outro raro susto, a situação é muito mais estável e previsível. Estão aí as inflações altas na Venezuela e na Argentina, mas são situações que pode ser resolvidas se os governos quiserem.

Balaio de Notícias - E, especificamente, da Argentina? Você tem acompanhado todos os presidentes nos últimos anos. A presidenta Cristina Kirchner é mesmo um fenômeno de popularidade? Cristina foi reeleita com 54% dos votos.
Márcia Carmo -
É sim um fenômeno de popularidade. Mas esse apoio está em queda, apesar de continuar em torno dos 50%, segundo institutos de opinião. O problema é que o governo não reconhece que existe inflação e é avesso à transparência do gasto público e de suas medidas. Não existe reunião ministerial, não existe coletiva à imprensa e não existe reunião do governo com a oposição. No entanto, a economia continua crescendo - vem neste ritmo de forte expansão pelo menos desde 2002. Analistas entendem que com poucos acertos, com certa arrumação, a Argentina afastaria facilmente os temores de crise - que por enquanto, na avaliação deles, está longe daqui. A presidenta adora, porém, medidas que geram incertezas no cenário internacional, como ocorreu com o decreto de intervenção na petrolífera Repsol-YPF. A medida tem apoio de diferentes setores porque a Repsol não estaria realizando investimentos, segundo governo e oposição, mas a expropriação caiu mal nos mercados e entre setores da oposição. É curioso porque morar na Argentina é muito bom mesmo, mas muitas vezes somos levados a escrever mal sobre ela - devido a medidas inesperadas que geram incertezas. Nada, porém, que afete a delícia de viajar por aqui.
 

Sônia Araripe é jornalista e editora de Plurale em revista e Plurale em site, com foco em Sustentabilidade.


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