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Reportagens

14/9/2011

INTERNET

A internet, as revoluções digitais e os novos produtores de informação

André Bürger

  
 
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Pierre Lévy em evento na Petrobras - Foto de Thelma Vidales

Os efeitos da revolução digital nas relações sociais e na vida cultural e profissional do homem contemporâneo foram alguns dos temas que o filósofo francês Pierre Lévy discutiu em sua passagem pelo Rio de Janeiro, recentemente. No seminário ‘Cibercultura e transformação social’, realizado na Petrobras, o autor de ‘Inteligência Coletiva’ falou sobre as potencialidades da web, o futuro da imprensa, entre outros assuntos. Estiveram presentes Marcus Vinicius Faustini, documentarista e coordenador do projeto Agência Redes para a Juventude e a escritora e pesquisadora Heloisa Buarque de Hollanda. Eliane Costa, gerente de patrocínios da estatal, apresentou o encontro.

Um dos principais estudiosos no campo das tecnologias digitais, Pierre Lévy acredita que a internet é uma importante ferramenta para desenvolver a liberdade de expressão e a participação cultural. Em sua fala, o filósofo ressaltou a grande exclusão digital no mundo, apesar de 33% da população global já estar conectada. “O problema não é apenas o acesso a computadores, mas a questão da alfabetização. Esse deveria ser o principal esforço dos governantes.”

O filósofo acredita que, atualmente, as informações estão em todo lugar, o que torna seu consumo muito mais prático. No passado, quando se queria divulgar algo para um amplo número de pessoas, precisava-se dos grandes veículos de comunicação. Hoje o cenário é outro. “Qualquer pessoa pode publicar gratuitamente sem restrição, mesmo sem capacidades técnicas complexas. Nesse aspecto, há liberdade de expressão pública”, destacou Lévy.

Nessa aldeia global – termo cunhado pelo filósofo canadense Marshall McLuhan – em que há diferentes fontes de informação e muitos produtores de conteúdo, são os internautas que decidem o que é importante e prioridade de leitura, acredita o filósofo. “Ao mesmo tempo, quando você, leitor, classifica algo como prioridade ou não, quando ‘taggeia’ ou curte um link, você também está participando dessa categorização on-line. Você entende o mundo e ajuda os outros a entendê-lo.”

Eliane Costa explicou que, em função desses aspectos, a inclusão digital tem sido vista, no Brasil, como questão cultural. “Um terço do acesso à internet no país começa nas lan houses, por isso não podemos deixar de estudar políticas públicas para o setor”, ressaltou a gerente.

Como estamos conectados, segredos pessoais são cada vez mais raros na rede, exemplo disso são os documentos de autoridades governamentais divulgados pelo WikiLeaks, por exemplo. Nessa esfera digital, tudo na rede pode se tornar público. “Para empresas da web, como Google e Facebook, e governos, nossas vidas estão cada vez mais transparentes e fáceis de serem rastreadas”, esclareceu Lévy, observando que essa situação também cria uma oportunidade para os cidadãos. “Temos que lutar para que essas empresas e governos também sejam mais transparentes, pois a confiança está baseada nessa transparência.”

Perguntado sobre o futuro do jornalismo nesse cenário, em que é crescente o número de leitores produtores de conteúdo, Pierre Lévy acredita que o mercado de notícias sofrerá mudanças da mesma forma que a Igreja Católica sofreu com a Reforma Protestante. Naquele período, com a proliferação de bíblias impressas as pessoas passaram a ter acesso a seu conteúdo. “Penso que a profissão será uma atividade paralela e comum a muitas pessoas. Todos poderão enviar suas próprias notícias. Hoje a Igreja existe, mas não tem o mesmo poder da época da inquisição”, comparou.
 

A periferia digital

Marcus Vinicius, autor do livro ‘Guia afetivo da Periferia’ (Aeroplano, 2009), concorda que a cultura digital possibilita uma maior circulação informacional. Ele reforçou que na periferia dos centros urbanos, essa onda digital possibilitou que expressões culturais se transformassem em potência estética. “O antropólogo não vai mais à favela para observar. São os jovens que filmam e postam seus vídeos artísticos na web. Esses adolescentes são mais potentes do que carentes”, pontuou.

Segundo Heloísa Buarque, esses locais não devem ser vistos como dependentes de ajuda, mas como lugares de chegada para novos imigrantes e oportunidades de negócio. “A periferia propõe novos modelos de economia, de solidariedade e organização social em movimento permanente”, acredita. “A estética desse local é baseada em fluxo e troca entre vários olhares: Um desses fluxos é o trânsito entre o centro e a periferia”, definiu a pesquisadora.


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