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Reportagens

21/9/2011

CICLO COMUNICAR ECONOMIA CRIATIVA

Empreendedorismo criativo

Christina Lima

  
 
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José Alberto Aranha é diretor do Instituto Gênesis, uma unidade da Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-Rio)

O engenheiro José Alberto Aranha conhece os caminhos para desenvolver processos, ferramentas e novas formas de gestão que tenham os recursos intangíveis como elementos da Nova Economia. Ele é diretor do Instituto Gênesis, uma unidade da Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-Rio) que atua na geração de empreendimentos e na formação de empreendedores. Entre outras atividades, a organização é responsável pela execução do projeto Rio Criativo, incubadora de empresas da economia criativa no estado do Rio.

“Na era do conhecimento, estamos falando de intangíveis. Falta, porém, valorar isso. Quanto vale o capital intelectual de uma empresa? A própria marca já está sendo avaliada, mas existem outros conhecimentos mais difíceis. O Facebook abrindo capital com 700 milhões de dólares é um caso. Isso é praticamente intangível: acreditar numa empresa porque ela gera muitos acessos não é o que podemos considerar um parâmetro convencional como bens, outros históricos e lucratividade”, exemplifica o autor de ‘Inter faces - A chave para compreender as pessoas e suas relações em um ambiente de inovação’ (Ed. Saraiva, 2009). “O que precisamos hoje é desenvolver indicadores mais consistentes e aceitos por todos. Uma bolsa de valores no futuro além de avaliar uma empresa pelos parâmetros normais poderá acrescentar os intangíveis de maneira mais formal. Isso já está sendo feito nas universidades; agora é uma questão de tempo e cultura.”

Uma das funções do Instituto Gênesis é ajudar empresas emergentes com potencial de inovação. São, muitas vezes, nas pequenas, que dispõem de uma força de trabalho jovem e instruída, que paradigmas são quebrados. “O mundo seria meio chato se todas as coisas novas só acontecessem nas grandes companhias”, diz Aranha. “Quanto maior a organização, mais a área de pesquisa e desenvolvimento (P&D) passa a ser corporativa e a tendência é olhar mais para o próprio umbigo e para as coisas que ela já faz.” As micro e pequenas empresas são mais livres para arriscar e encontrar nichos de mercado.

A expressão ‘empreendedores criativos’, na realidade, se encaixa na descrição de qualquer tipo de empreendedor: se precisamos hoje de pessoas que façam algo de novo, estamos falando de criatividade. De acordo com José Alberto, é preciso saber equilibrar boas ideias com competência na realização. Uma solução seria se empreendedores tivessem sócios. “Se artistas, essas pessoas muito criativas, se associassem aos que planejam, executam, que têm metas e os pés no chão, a dupla poderia ser interessante”.

Essa parceria pode ser a saída para o problema da conversão de criatividade em resultados financeiros. Para isso, segundo o diretor, a lacuna no mercado ainda precisa ser preenchida por um ‘empreendedor da nova economia’. “Tem que ser um profissional que consiga entender o artista e transformar seu talento em um processo estruturado, produtivo. Um artista plástico, por exemplo, precisa de um marchand. Esse marchand é que precisa ser mais bem preparado, não para explorar o artista, e sim para trabalhar junto com ele na busca de um resultado economicamente viável”, acredita José Alberto.

O Brasil pode se beneficiar do potencial para a geração de empregos de um sistema baseado na raiz cultural brasileira, justamente a que mexe com as camadas sociais menos privilegiadas. “Em comunidades, há expressões culturais interessantíssimas que, se organizadas, podem ser transformadas em produtos e serviços capazes de melhorar a qualidade de vida, conseguir um desenvolvimento econômico local”, afirma.

Já uma economia baseada na propriedade intelectual, segundo José Alberto, é muito discutível. Para ele, o equilíbrio entre o direito autoral como uma participação punitiva ou como um estímulo é delicado. “Não se pode 'matar' o criador não dando chance de participação do que ele criou e, ao mesmo tempo, se há exagero na dose, inviabiliza-se o acesso para as pessoas que não têm condição”. Os modelos atuais ainda não encontraram muito bem essa solução, vide os problemas da indústria fonográfica, do audiovisual e também da literatura. “É importante reconhecer que o setor não é só de cultura pura, como se poderia imaginar, mas de uma cultura que pode gerar desenvolvimento econômico.”

Mas de que forma a construção de um mercado cultural mais estratégico e focado no desenvolvimento sustentável exige novas maneiras de pensar, agir e lucrar? Para responder essa questão, José Alberto dá como exemplo o Cirque Du Soleil. “Todos reconhecemos essa companhia circense, do Canadá, como um grande empreendimento cultural, não é? Qual a diferença entre esse trabalho e o de um grupo mambembe do interior do Brasil? A diferença é que eles são altamente estruturados, organizados e profissionais. É uma empresa e não uma pura expressão artística popular, que também é muito importante, principalmente porque é a raiz, a base. Mas falta transformar isso dentro do nosso sistema.”

Para Aranha, o mesmo acontece com o cinema. Ao importarmos cinema norte-americano, pagamos por ele e recebemos também todos os produtos, conceitos e culturas de lá. Por outro lado, ao desenvolvermos um bom cinema brasileiro, é possível competir no mesmo nível de qualidade, mas com raízes culturais nacionais. “Não temos que bloquear o que vem de fora, a gente é que tem que melhorar a produção daqui”, afirma.

As Tecnologias da Informação e Comunicação (TICs), segundo Aranha, são em grande parte responsáveis por essas importantes mudanças. Elas somaram uma variável tecnológica ao que já conhecíamos em termos culturais. Ao juntar os dois elementos abre-se uma porta enorme, complexa, mas também capaz de proporcionar mais acesso.


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