Letícia Mota e Carlos Vasconcellos
Apesar de nossa vocação para a economia criativa, ela chegou ao Brasil com atraso de dez anos, considerando que a Austrália, em 1994, foi o primeiro país a apontar a necessidade de desenhar políticas públicas para estimular a economia movida a cultura e criatividade. Ana Carla Fonseca Reis, consultora de Economia Criativa e Economia da Cultura da ONU, explica que o Brasil começou a ‘namorar’ o conceito em 2004, quando o embaixador Rubens Ricúpero – na época, secretário-geral da Unctad – trouxe a discussão para o país. Com o apoio do então ministro de Cultura, Gilberto Gil, o tema inspirou a criação do Fórum Internacional de Indústrias Criativas, em 2005, em Salvador.
“Da discussão inicial surgiram algumas propostas e projetos que, infelizmente, não se concretizaram em âmbito nacional. Felizmente o Ministério da Cultura assumiu essa bandeira com a criação, este ano, da Secretaria de Economia Criativa, coroando um trabalho que vínhamos fazendo nos últimos sete anos”, diz Ana Carla. Embora tenha demorado a haver uma iniciativa nacional, a consultora destaca projetos importantes em nível estadual, como o do Sebrae do Rio de Janeiro, que criou departamento específico para a economia criativa; ou o da Secretaria estadual de Cultura do Rio, que concebeu o Rio Criativo, incubadora de empreendimentos de economia criativa. “Algumas cidades vêm despontando nessa busca de um olhar próprio sobre a economia criativa. Mas o fato é que essa discussão, em nível federal, deve gerar um ambiente muito mais favorável, e melhorias no setor”.
Ampliação do campo cultural
Da moda ao design, dos jogos à arquitetura, do artesanato às nanotecnologias, do turismo ao entretenimento, qualquer campo criativo que gere mais do que produtos, experiências, é incluído no escopo da economia criativa. Na prática, o conceito prevê a ampliação do campo da cultura.
“Quando discutimos a economia criativa não estamos falando de algo novo como conteúdo, mas sim de um novo olhar, porque criatividade sempre foi importante para a evolução da economia, que de repente virou uma efervescência de conceitos”, explica Ana Carla. “Ela é movida pelos intangíveis, já que não estamos mais falando essencialmente de matérias-primas, commodities, riquezas básicas da economia, mas de valor agregado gerado pela criatividade humana. Esses intangíveis são o valor de uma marca, a capacidade de transformação, o processo de produção e afins, e caracterizam essa economia criativa, que acaba bebendo em duas outras fontes: a economia do conhecimento e a economia da experiência.”
“O interessante desse novo olhar sobre a economia é questionar de onde vem esse valor agregado, de onde vem a competitividade”, continua Ana Carla. “Quando se analisa o peso econômico desse setor na economia mundial, percebemos que ele tem uma representatividade muito forte na geração do PIB – estimado em 7% – e também promove uma grande geração de emprego e renda, em diversos níveis da cadeia produtiva”, avalia a consultora.
Ana Carla Fonseca, por sua vez, defende mais capacitação para a indústria criativa. “Embora o brasileiro seja muito talentoso, falta uma educação formal para o setor. Isso tem que ser resolvido, para que não desperdicemos os nossos talentos. É preciso mesmo incluir a economia criativa no contexto do currículo escolar, para que a sociedade tenha consciência de que ela existe, e é tão importante”, defende.
Ana Carla acredita que o grande papel da SEC é o de se articular com outras instituições, como IBGE, Ipea e ministérios. “Precisamos conscientizar a sociedade e reconhecer que cultura e criatividade são ativos fundamentais e essenciais na economia nacional. E acho que esse passo nós estamos dando, não só no setor público, mas também no privado, por meio dos agentes culturais e criativos”, observa.
A consultora lembra que também é preciso entender as especificidades de cada segmento dentro da indústria criativa, para que as questões existentes – como a valoração do trabalho; o acesso ao crédito, à informação e à capacitação – sejam resolvidas. Ela reforça que isso não vai depender apenas da atuação do Estado, mas também do setor privado. As instituições financeiras, por exemplo, já começaram a perceber que, se não investirem na indústria criativa, estarão perdendo dinheiro e boas oportunidades de negócios. “Elas têm que se conscientizar, e algumas, como o Santander, já estão fazendo isso, oferecendo produtos financeiros próprios para o segmento. Essas soluções permitirão resolver um grande gargalo dessa cadeia produtiva, que é o acesso ao crédito”, diz Ana Carla. “Temos um potencial gigantesco, mas muita coisa ainda para fazer”, complementa.
Novas tecnologias de mídia e comunicação
De acordo com Ana Carla Fonseca, as novas tecnologias de mídia e comunicação repercutem na economia criativa brasileira de três formas: criando novos modelos de negócios – como os colaborativos e de open business (negócios abertos) –; ampliando as possibilidades de produção, distribuição e acesso aos bens e serviços criativos; e promovendo a alfabetização tecnológica dos usuários.
“Ao contrário dos modelos tradicionais de negócios, lineares e com distribuição concentrada, aqueles que são gerados pelas novas tecnologias de mídia e comunicação se baseiam no uso de redes de colaboração entre os agentes, na exploração de canais alternativos de distribuição, na criação de uma dinâmica heterodoxa de reconhecimento financeiro do criador (que não depende apenas da lógica tradicional de direitos autorais) e, claramente, no uso das novas tecnologias”, observa Ana Carla.
A consultora dá como exemplo o modelo tecnobrega, fenômeno da região amazônica de Belém: “O compositor cria suas músicas, grava-as em seu estúdio caseiro, distribui as faixas gratuitamente tanto para os DJs das grandes festas quanto para os camelôs, que revertem parte do valor da venda para os artistas. Os primeiros tornam as músicas conhecidas e os segundos multiplicam esse efeito, funcionando como canais de distribuição. A remuneração dos músicos se dá pela contratação de shows e, claro, pela participação na venda de CDs. Além de reduzir os custos de gravação, a tecnologia possibilita o processo e é sua grande protagonista”, conta.
Segundo pesquisa da Fundação Getúlio Vargas, em 2006 o tecnobrega congregava 140 bandas, 700 conjuntos de equipamentos e 860 camelôs, produzindo 4.300 festas por mês e gerando 6.400 postos de trabalho diretos.