Gustavo Gomes de Matos
Dois gerentes de uma grande empresa conversam:
- O que adianta participarmos do Seminário de Opinião se não temos a chance de expressar nossas ideias e dúvidas, nem mesmo apresentar uma sugestão bem fundamentada?
- É mesmo! Os diretores querem apenas que a gente escute o que eles têm a dizer, sem questionamentos ou debate. E ainda dizem que esse evento faz parte da Política de Comunicação Interna! - exclama em tom de desaprovação.
Isegoria: conceito originário da democracia grega que consiste no princípio de igualdade do direito de manifestação do cidadão nas assembleias, onde se discutiam os assuntos da pólis. A todos os participantes era dado o mesmo tempo para falar sem ser interrompido. O termo está relacionado à liberdade de falar, quando ela é igual para todos. Ou seja, existe isegoria onde todos têm a mesma liberdade para pronunciar-se.
Infelizmente, não é bem isso o que, de um modo geral, acontece nas instituições e empresas públicas ou privadas. Nos ambientes organizacionais é predominante o fluxo de comunicação descendente, aquele que faz parte da estrutura de uma rigorosa dependência hierárquica. As mensagens saem do topo decisório e descem até as bases, sem espaço para o diálogo.
A liberdade de falar, igual para todos, deve ser vista como um direito a ser conquistado e um dever a ser cumprido por todos. É muito fácil nos colocarmos na posição cômoda de reivindicadores. No entanto, quando somos chamados a respeitar esse mesmo direito para nossos interlocutores podemos perceber nitidamente a reprodução de um ato condicionado de querer apenas falar e não ouvir o que o outro tem a dizer. Dar espaço para o outro falar implica em desenvolvermos a habilidade de saber ouvir, respeitando o direito à expressão e comunicação de todo ser humano.
Seja na empresa, na escola, nos espaços públicos e institucionais, como também em nossas famílias e círculo de amizades, a consolidação da isegoria pode ser considerada como um indicador do grau de maturidade e sabedoria que se expressa em maior intensidade pela demonstração prática do respeito à arte da convivência pacífica, criativa e produtiva, das diversidades humanas.
Neste ponto, podemos considerar a liberdade de falar como algo a ser conquistado por pessoas e grupos sociais conscientes dos direitos e deveres da vida em sociedade. E uma coisa é certa, só alcançamos esse estágio pela via da educação com comunicação, diálogo e relacionamento humano.
Gustavo Gomes de Matos é jornalista, pós-graduado em administração de recursos humanos e especialização em economia. Consultor de Comunicação Empresarial, com 18 anos de atuação em grandes organizações do setor privado. Professor universitário e conferencista de Comunicação Corporativa, é autor dos livros 'A Cultura do diálogo', pela Editora Campus/Elsevier, e 'Comunicação sem complicação: como simplificar a prática da comunicação nas empresas', 2ª edição, pela Editora Manole. É autor, também, de obras institucionais, tais como: Visão de um empreendedor - na realização empresarial, uma razão de vida (Engemaq Indústria de Máquinas -RS); PUC-Rio 60 ANOS - uma história de solidez; e Décadas vitoriosas - a história dos 60 anos do Senai.