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Reportagens

26/04/2012

MÍDIA

Infotainment: a busca do equilíbrio entre entretenimento e informação

André Bürger

  
 
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Imagem conceitual de apresentador de TV

Recentemente, em Brasília, houve uma confusão entre um dos humoristas do programa CQC, da Band, e repórteres de televisão durante a cobertura de um evento com a Secretária de Estado dos EUA, Hillary Clinton. Os jornalistas reclamaram que Maurício Meirelles, um repórter (credenciado) do programa, tentou entregar uma máscara de carnaval à Secretária, gritou 'I love you, Hillary!' e acabou atrapalhando a transmissão ao vivo de outra emissora. O episódio teve grande repercussão e expôs um momento de conflito entre jornalismo e humor.

Na luta pela audiência, alguns canais de comunicação têm apostado na mistura de informação com entretenimento. É o recurso do infotainment cada vez mais presente em nosso dia a dia e o 'CQC' é um exemplo disso. Essa união, entretanto, não é nenhuma novidade.

Para Carmem Petit, coordenadora da TV PUC, núcleo de televisão do projeto Comunicar, da PUC Rio, os repórteres do 'CQC' são uma versão contemporânea de Ernesto Varela, personagem criado pelo jornalista Marcelo Tas e pelo cineasta Fernando Meirelles, na década de 80, época em que já era possível estabelecer uma tensão entre a objetividade e a imparcialidade jornalística e o humor. Segundo a coordenadora, para muitos profissionais, o 'CQC' não faz jornalismo, apenas humor.

Em resposta ao episódio, Marcelo Tas disse, durante a edição de 23 de abril, do 'CQC', que a brincadeira foi feita apenas no final da coletiva. O apresentador também comentou a nota do Sindicato dos Jornalistas do Distrito Federal, que pediu às assessorias dos órgãos governamentais que não forneçam credenciamento de jornalista para os humoristas do programa. "Será que é hora de o Brasil voltar a restringir a liberdade de imprensa? O país tem jornalistas brilhantes que fazem jornalismo com humor", criticou.

"O jornalismo não se permite fazer humor porque a construção da notícia está baseada na reprodução da realidade de forma objetiva. Ocorre que, no mundo de hoje, a imparcialidade caiu por terra e a revolução tecnológica pôs em xeque o lugar do jornalista. É claro que o jornalismo não está acabando, no entanto, precisa reafirmar-se como lugar de construção de um saber", apontou Carmem.

Segundo a professora, o entretenimento é algo que vai além da diversão. "Entreter é também despertar o interesse do público", define. Ela lembra que informação e entretenimento sempre estiveram interligados. "Basta considerarmos um programa tradicional como o 'Jornal Nacional'. Na paginação deles está presente a ideia de que uma sequência de notícias ruins deve ser fechada por algo leve, divertido e esperançoso. Os telejornais dificilmente terminam com uma notícia ruim."

Para Carmem, citando como exemplo o programa 'CQC', é reducionista afirmar que ali a articulação entre informação e entretenimento não favorece a reflexão do espectador. "No programa, o humor tem objetivos bem específicos e a construção do produto audiovisual mescla atuações performáticas, elementos da cultura pop e recursos de gravação e montagem que produzem um jogo de sentidos. Tudo isso exige um engajamento do espectador", ressaltou.
 

Humor e informação

O grande problema surge quando o sentido da diversão pura e simples se impõe nos produtos de comunicação. "Hoje, tudo tem que ser leve e divertido. É uma tendência presente até nas metodologias de ensino", critica a coordenadora. Se há produção desse tipo de conteúdo, é porque deve haver audiência para isso. Será que no fundo, o público realmente quer apenas a diversão pela diversão?

"Acho que há um movimento social e cultural. A sociedade contemporânea tem a felicidade como meio e não como fim, logo, não há espaço para a insatisfação, para a contestação, para o incômodo. Essa concepção de notícia é apenas um reflexo do mundo que construímos. E como há muita oferta de informação, conquista quem primeiro satisfaz o desejo voraz, imediato e efêmero do consumidor", refletiu Carmem.

Pedro Curi, professor de jornalismo da ESPM-RJ, também compartilha dessa preocupação. Para o professor, que defende um equilíbrio entre diversão e informação, tudo vai depender de como a notícia é divulgada. "Excesso de entretenimento pode esvaziar a notícia, tanto quanto o jornalismo que, com excesso de seriedade, pode dificultar a compreensão e fazer com que as pessoas percam o interesse. Os dois modelos podem prejudicar a reflexão e o acesso", avaliou.

Para o professor, se o jornalista mostra preocupação com a apuração dos fatos, mas dá uma cara diferente à notícia, não há problema algum. "Se for um conteúdo interessante e as pessoas conversarem sobre aquilo, a reflexão vai acontecer da mesma forma. Consequentemente, se interessar-se pelo assunto, vai correr atrás de mais informações."

Hoje, recebemos muitos estímulos visuais e sonoros ao navegar pela internet - são vídeos, banners, fotos e links que levam os usuários a tantos sites - que chamar a atenção é uma missão diária. Segundo Pedro Curi, o conteúdo de entretenimento acaba captando o interesse das pessoas. "Com isso, há uma maior possibilidade de compartilhamento."
 

Esporte e diversão

Nos programas de esportes na TV, por exemplo, são comuns matérias apresentadas com bastante humor, trocadilhos e apresentadores fazendo brincadeiras no ar. O problema, segundo os especialistas, é quando o formato escorrega nas piadas e os conteúdos 'engraçadinhos' desviam o foco da notícia.

"O jornalismo esportivo é um terreno pantanoso, em que o espetáculo e o negócio do futebol, sobretudo, se impuseram sobre o jornalismo. Curioso que, nos últimos anos, o esporte parecia ser o lugar da criatividade no jornalismo, onde o repórter podia ser livre das amarras daquele formato duro, imparcial e pouco atraente", contextualiza a Carmem.

De acordo com a professora da PUC, esse formato tem levado muitos jovens a entrarem na faculdade para fazer jornalismo esportivo e não mais jornalismo. "O esporte e o jornalista acabam tornando-se reféns de um espetáculo bilionário. Além disso, é importante destacar que criatividade não é sinônimo de ser engraçado."

Para Pedro Curi, é possível descontrair a apresentação de uma matéria e quebrar o modelo clássico de um VT fazendo coisas diferentes e criativas sem parecer bobo. "Não precisa colocar onomatopeias e balõezinhos de quadrinhos. A Rede Globo já usava isso há muito tempo com a Zebrinha do Fantástico, trazendo o resultado dos jogos de futebol de forma leve." Um dos caminhos, para o especialista, é pensar em novas formas de contar uma história levando em consideração não apenas a questão do texto, mas também da imagem.


Entretenimento digital

Com a proposta de oferecer conteúdo divertido associado a notícias contextualizadas na internet, a Unidade Digital da Infoglobo apostou em um projeto experimental: o site 'Jogue Tudo', que oferece games on-line e matérias dos jornais 'Extra' e 'O Globo' em um mesmo ambiente. Em alguns casos, os assuntos das notícias têm alguma relação com o jogo. Para Rui Belfort, coordenador do projeto, que ainda está em período de testes, servir informação durante uma experiência divertida de entretenimento digital é um diferencial que pode aumentar de forma relevante a audiência de um produto.

"Temos provas de que esse caminho tem um enorme potencial. No Brasil, esse formato ainda é pouquíssimo explorado. Em um mundo onde a concorrência pela atenção do consumidor é acirrada, a oferta de valor precisa ser mais alta. Não é uma questão de apenas estar presente, mas de aumentar a conveniência", explica Rui.


 
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