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Reportagens

25/5/2012

IMPRENSA

Celebrando 60 anos de profissão de um dos ícones do jornalismo brasileiro

André Bürger

  
 
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Ancelmo Gois, Alberto Dines e Armando Strozenberg

Alberto Dines começou sua carreira aos 20 anos como crítico de cinema da revista 'A Cena Muda'. Aos 21, foi convidado a trabalhar na revista 'Visão', desta vez como repórter. Desde então nunca mais parou. Nesses 60 anos de profissão, passou pela revista 'Manchete', pelos periódicos 'Diário da Noite', 'Última Hora', 'Jornal do Brasil' e 'Folha de S.Paulo'. Atualmente, apresenta o programa 'Observatório da Imprensa', toda terça-feira na 'TV Brasil', e é editor do site de mesmo nome, criado em abril de 1996. "Um personagem múltiplo", como definiu Armando Strozenberg, publicitário e conselheiro da Casa do Saber na abertura do encontro no Rio de Janeiro que celebrou os 80 anos do jornalista e contou com a participação de Ancelmo Gois, também jornalista e colunista de 'O Globo'.

Para Gois, Alberto Dines é um "milagreiro valente" capaz de enfrentar a imprensa que, segundo o colunista, é um espaço de muita vaidade. "Ele é um colega jornalista que critica outros jornalistas e ainda consegue o respeito desses profissionais."
 
Essa postura analítica começou na década de 1960 quando Dines passou alguns meses nos Estados Unidos frequentando um curso na Universidade de Columbia, na sua opinião, uma das melhores escolas de jornalismo do mundo. Em outra viagem ao EUA, presenciou discussões sobre a postura de jornalistas e o papel da mídia no Caso Watergate, que culminou com a renúncia do presidente Richard Nixon e destacou o trabalho de investigação dos repórteres Bob Woodward e Carl Bernstein. Quando voltou, foi trabalhar na 'Folha de S. Paulo', em 1975, onde estreou a coluna semanal 'Jornal dos Jornais', dedicando-se a comentar o trabalho dos colegas de profissão. Posteriormente, o mesmo espaço cedeu lugar à coluna do Ombudsman do periódico.

Dines acredita que a imprensa tem que se posicionar como uma eterna instituição estável e assumir que não é a dona da verdade. "No Brasil, a imprensa não é plural. Hoje, 'O Globo', 'Estado de S. Paulo' e 'Folha de S.Paulo' são muito parecidos. O papel da imprensa é despolarizar, provocar reflexão e debate. Passar o pires na mão, como alguns jornais fazem com o governo, é o fim. A imprensa deveria abordar mais assuntos edificantes. Sua função é trazer sentido para a vida. Infelizmente, o setor está deixando isso de lado", criticou.

Um dos casos que Dines chamou a atenção em sua coluna na época foi o caso Vladimir Herzog. De acordo com o jornalista, antes de sua morte, Herzog, que era diretor de jornalismo da TV Cultura, vinha sendo achacado pelo jornalista Cláudio Marques, do periódico 'Shopping News', distribuído em São Paulo. "Com ironia, ele escreveu que alguns jornalistas, entre eles o Herzog, deveriam hospedar-se no 'Sofitel Totóia', uma explícita menção às instalações do DOI/Codi de São Paulo. Uma semana depois, Herzog foi morto. É importante lembrar que ele não foi preso, mas detido após se apresentar ao DOI."

A questão da credibilidade na imprensa atual, em face das novas tecnologias e da crise econômica, também foi tema do encontro na Casa do Saber. Para Dines, as tecnologias estão em constante mudança e a imprensa sempre soube absorver isso muito bem. "Os empresários da comunicação estão partindo do fato de que se o cenário econômico está ruim, deve-se oferecer algo sem densidade. Isso é uma bola de neve. Entretanto, vemos muitos veículos passando por dificuldades, como o britânico 'The Guardian', mas que continuam fazendo um dos melhores jornalismos da atualidade", ponderou.
 

Histórias e casos

Em uma noite cercada de amigos, Dines também falou sobre suas experiências e contou casos vividos nessas seis décadas de profissão. Um desses episódios aconteceu em 1968, na noite de 13 de dezembro. Aquele dia foi marcado na história do país pela instauração do Ato Institucional nº 5 pelos militares. Dines trabalhava no 'Jornal do Brasil' e fechava a edição do dia seguinte sob a vigilância dos censores.

"Com cuidado, mudamos a primeira página e colocamos algumas metáforas no miolo para chamar a atenção da população de que estávamos sob censura. A manchete principal anunciava a instauração do AI-5. Fizemos algumas piadas na seção de meteorologia com frases do tipo 'nuvens escuras cobrem o país', 'tempo negro' e 'temperatura sufocante'. Em outro texto, fizemos menção ao Dia de Santa Luzia, comemorado em 13 de dezembro e protetora dos olhos e da visão. O jornal foi um dos primeiros a manifestar-se contra a ditadura e a censura. Foi um dia histórico."

Dines confessou que, em outra ocasião, também no JB, quase pediu demissão por causa da censura excessiva. "Naquele dia, recebemos uma matéria pronta feita pelos militares descrevendo a confissão de um militante. O texto já estava até no formato da lauda do jornal, com título e subtítulo", comentou exaltado. "Eu quase pedi demissão, mas fui convencido a continuar, pois, com certeza, haveria repressão contra os que ficassem. Olhando para trás, me cobro que poderia ter feito mais no período da ditadura."

O jornalista também participou da reformulação do Jornal do Brasil, que ocorreu na década de 1960. Algumas mudanças como a divisão de equipes por editorias, a criação do departamento de pesquisa e a impressão do jornal pela manhã, acabaram tornando-se regras também para outros veículos.


Convivência com ícones da imprensa

No bate-papo, Dines também compartilhou suas experiências com alguns dos grandes nomes do jornalismo brasileiro. Sobre o jornalista e crítico Paulo Francis, ele disse: "Um caudilho fascinante que possuía vasta cultura. Era do tipo que chegava pela manhã e comentava sobre uma sinfonia de Beethoven entre um papo e outro. Ele foi um dos motivos que me inspiraram a fazer a biografia do escritor Stephan Sweig."

"Já o Millôr Fernandes era um gênio polivalente e independente", sobre o escritor e cartunista fundador do 'Pasquim'. "Um democrata contra a censura que sempre defendeu a liberdade de expressão".

Ao lembrar de Samuel Wainer, fundador do jornal 'Última Hora', Dines comentou: "Escrevia muito bem. Era um homem de redação. Apesar daqueles olhos azuis, dava grandes broncas nos jornalistas. Ele queria que a gente se esforçasse ao máximo, pois ele dava sempre o melhor de si."


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