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COMUNICAÇÃO & ESPORTE

E o torcedor, como fica?

  
9/3/2012
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COMUNICAÇÃO & ESPORTE

Marcos Moura é pós-graduado em Comunicação e foi editor de esportes por dez anos em grandes veículos digitais brasileiros. Nos últimos três anos, atua em projetos corporativos, o que não o impede de acompanhar diariamente o noticiário esportivo. Só não precisa mais trabalhar final de semana sim e final de semana também. Pretende analisar as ações, boas e ruins, de Comunicação no Esporte. Comente, discorde, dê sua opinião. O espaço é para isso. Twitter: @marcosmoura21

 

No início desse ano surgiu a notícia de que a Fox ia estrear seu novo canal de esportes no Brasil, o Fox Sports. A Fox é um dos canais de TV do conglomerado de mídia comandado pelo bilionário Rupert Murdoch, aquele que no ano passado teve de fechar um jornal por causa de grampos ilegais na Inglaterra. O Fox Sports começou a contratar alguns profissionais da concorrência, o que considero excelente para o mercado, e tem como trunfo a transmissão exclusiva da Copa Libertadores. O torneio que reúne os principais clubes do continente virou uma obsessão dos brasileiros nos últimos anos. Em 2012, tem a presença de seis das maiores torcidas do País: Flamengo, Corinthians, Santos, Vasco, Internacional e Fluminense.

Pois bem, aí a confusão começou. Pelo que sabemos lendo as notícias, a Fox não quis compartilhar os direitos de transmissão com o SporTV, que desde o começo da década passada transmite a competição. Acho que a Fox tem todo o direito de fazer isso, coisas de mercado. O SporTV é o braço esportivo da Rede Globo na TV paga e a mesma Rede Globo tem participação acionária importante nas duas principais operadoras de TV por assinatura, Net e Sky, que têm algo como 80% do público. A imprensa tem noticiado uma possível represália das Organizações Globo pelo não compartilhamento dos direitos com o SporTV. As OGs negam e deixam transparecer que a Fox queria receber uma parte do que pagam os assinantes de Net e Sky, sem ônus pela entrada direta do canal na grade.

A Fox já possui dois outros canais nas grades da Net e Sky: o FX e o Speed. Parece que a emissora até tentou transformar o Speed no Fox Sports, com o que as operadoras não concordaram. A Fox conseguiu se associar a operadoras menores como Oi TV, Embratel e TVA, o que não satisfaz a maioria esmagadora dos torcedores. O imbróglio gerou a esdrúxula situação de jogos simplesmente fantasmas desde que a Libertadores começou e o lançamento mais caótico de um canal na história do universo.

As torcidas de Flamengo e Corinthians não terão maiores problemas, já que a Globo tem exclusividade para transmitir uma partida semanal na TV aberta e, obviamente, por questões de ibope escolherá quase sempre os jogos de ambos. Essa semana, a emissora, no entanto, preferiu Boca Juniors x Fluminense, em vez de Flamengo x Emelec. A torcida rubro-negra contava com a transmissão no FX, o que não se concretizou e então, dezenas de milhões de torcedores, tiveram como única opção alavancar milagrosamente a audiência das rádios de todo o Brasil ou buscar links clandestinos na web. E o jogo ainda começou 19h30, no meio da Voz do Brasil (!!!).

Não é possível que no auge da comunicação digital e das vendas de patrocínios esportivos, estejamos vivendo a situação inacreditável do principal torneio de clubes de futebol da América do Sul ter partidas importantes que quase ninguém está vendo. Em uma atitude provavelmente para pressionar as operadoras, a Fox ignora a possibilidade de transmitir todos os ‘jogos-fantasmas’ pelo FX ou Speed ou mesmo de turbinar o seu novo site, inaugurando uma era de transmissões on-line com verdadeira qualidade. Seriam medidas temporárias, enquanto o problema principal não é solucionado. A Fox chegou pateticamente a fazer uma campanha para incentivar os assinantes a reclamar da ausência do canal na Net e na Sky como se a culpa fosse deles.

Os clubes, por sua vez, são gigantes em número de torcedores, mas fraquíssimos em negociação e ideias. Simplesmente têm ignorado suas torcidas. O Santos, atual campeão da Libertadores e clube do único craque brasileiro em atividade (Neymar), jogou duas partidas no torneio até aqui e quase ninguém viu. O que a brava diretoria do Santos, tão criativa na hora de manter Neymar no Brasil, tem feito para que seus milhões de torcedores possam ver os jogos? E a presidenta do Flamengo, o que fez para que a ‘Nação’ acompanhasse o encontro com o Emelec? Nada, né? O Inter fez. No jogo diante do Santos, sua diretoria conseguiu autorização da Fox e transmitiu a partida em um telão no Gigantinho, o ginásio que fica ao lado do estádio Beira-Rio. O preço cobrado foram dois quilos de alimentos não-perecíveis. Parabéns ao Colorado gaúcho, que já havia usado o expediente em outras partidas importantes fora de casa, como no Mundial de Clubes.

Sugiro que os dirigentes que terão ‘jogos-fantasmas’ entrem em acordo com a Fox e transmitam as partidas nos próprios sites oficiais. Qualquer profissional de TI é capaz de preparar um bom suporte para aguentar o acesso de milhões de pessoas durante os jogos. Os bares onde cada uma das torcidas se acostumou a acompanhar as partidas por todo o Brasil podem conectar o computador no telão e a vida está resolvida. O clube fica com a imagem boa porque a galera está vendo o jogo e a FOX, apesar de tudo que tem feito, acaba como ‘uma boa parceira’. Muito difícil, né?

Outro ponto é a multiplicação de canais de esporte. Sabemos que a indústria é bilionária e que hoje tudo é esporte. É esporte novo sendo criado todo dia. Tenho admiração pessoal pelos canais ESPN. Além deles, temos como opção três canais SporTV, o BandSports e o Esporte Interativo, que também virou meio fantasma quando deixou as grades da Net e da Sky. Há também os canais Premiere, aqueles que vendem o que já deveria ser de graça, o chamado pay-per-view. No caso do futebol, as transmissões são péssimas, com poucas câmeras e os profissionais menos experientes. Essa semana surgiu a notícia de que a Fox ofereceu U$ 80 milhões pelo BandSports e poderia transformá-lo em Fox Sports imediatamente. As partes parecem estar negociando. Vamos esperar.

A história toda mostrou também que 80% do público da TV paga está nas mãos de apenas duas operadoras, cuja controladora é a mesma empresa que possui o maior canal de TV aberta. A internet dá a falsa impressão de democratização da informação. Infelizmente.


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