Marcos Moura é pós-graduado em Comunicação e foi editor de esportes por dez anos em grandes veículos digitais brasileiros. Nos últimos três anos, atua em projetos corporativos, o que não o impede de acompanhar diariamente o noticiário esportivo. Só não precisa mais trabalhar final de semana sim e final de semana também. Pretende analisar as ações, boas e ruins, de Comunicação no Esporte. Comente, discorde, dê sua opinião. O espaço é para isso. Twitter: @marcosmoura21
O último final de semana confrontou claramente dois modos de tratar o Esporte na televisão. Começo a falar da espetacular cobertura da ESPN Brasil em mais uma final da Liga dos Campeões da Europa. O principal produto da emissora é tratado de forma jornalística exemplar. Um ou outro pode dizer que é demais ficar horas e horas comentando antes e depois da partida se o Bayern de Munique deveria jogar no 4-4-2 ou no 4-2-3-1. E se é correto um russo torrar um bilhão de euros para fazer o Chelsea campeão. A pessoa pode até não gostar, é claro, mas isso é Jornalismo, assim mesmo com 'J' maiúsculo. Narradores, apresentadores, comentaristas e repórteres conhecem o que estão falando, sabem a trajetória de cada um dos jogadores em campo, dos treinadores fora e o que representa uma conquista para aqueles torcedores. Dá um orgulho danado ser jornalista e acompanhar uma transmissão dessas.
Pouco mais de 24 horas depois tivemos contato com a informação esportiva tratada de outra maneira. O argentino German Herrera, atacante do Botafogo, marcou três gols diante do São Paulo, na goleada por 4 a 2. Todo mundo que acompanha futebol sabe que o cara que faz três gols no Brasil pede música no Fantástico, da Rede Globo. Não sabemos ainda se o Herrera não curte o programa, a Globo ou mesmo se curte música. Também não lembro se o próprio Herrera já foi sacaneado no mesmo quadro, que utiliza um tal mustela para fazer piada dos jogadores que cometem erros durante as partidas. O lance é que ele não quis pedir a música e virou notícia. Como assim o Herrera não quis pedir a música, vira notícia e o ‘fato’ se torna mais importante do que os três gols marcados?
A recusa de Herrera ganhou destaque em chamadas entre dois blocos e foi a maior atração da parte dedicada aos gols. A produção do programa aproveitou uma palavra dita pelo argentino, buscou uma música do Chiclete com Banana e colocou no ar. Os três gols do Herrera tiveram, na verdade, menos espaço do que a recusa em pedir um sucesso de Luan Santana, Thiaguinho ou da banda Calypso. E aí é que fica clara a diferença entre Jornalismo, com 'J' maiúsculo, e entretenimento, que é o que o Esporte da Globo faz há muitos anos. Um repórter da Globo chamou Herrera de ‘babaca’ no Twitter. Esqueceu que é jornalista e incorporou o tom de entretenimento da empresa em que trabalha.
Vou usar como exemplo jogos hipotéticos, mas isso já aconteceu no programa. O Atlético-MG fez 5 a 2 no Uberlândia pelo Campeonato Mineiro e por causa do tempo, os gols foram resumidos, tipo passaram três gols do Galo e um do Uberlândia. Na sequência, um atacante do Ananindeua meteu três gols no Fast Club pelo Campeonato Amazonense. O programa passou todos os gols e o rapaz pediu a música dele. Nada tenho contra o Amazonas. Mas queria ver os gols do Amazonense todo domingo e não só quando o cara dá uma sorte danada e faz três gols. O Ananindeua nunca mais teve gol no Fantástico. Eu fico imaginando o desespero do pessoal do programa quando ninguém faz três gols.
A recusa do Herrera me lembrou do Dunga. Quando treinador da Seleção, ele achou por bem não conceder exclusivas para a Globo e proibiu o livre trânsito dos repórteres da empresa nos corredores da concentração. Jornalisticamente foi uma decisão acertadíssima. Tratamento igual para todos. O final você deve lembrar: o técnico batendo boca publicamente com um dos apresentadores da Globo em uma entrevista coletiva na África do Sul durante a Copa de 2010.
Já escrevi aqui e repito: a emissora tem o direito de usar a linha editorial que quiser. Se a Globo prefere passar os três gols do cara do Ananindeua e a música que ele quis ouvir em detrimento dos cinco gols do Galo é problema dela. O que não pode é o público não conseguir diferenciar que isso não é jornalismo. Li gente demais na internet escrevendo sobre o estágio do 'jornalismo esportivo'. Minha gente, Luan Santana, banda Calypso, Padre Fabio de Mello, João Sorrisão, Inacreditável Futebol Clube, João Bolinha nada têm a ver com Jornalismo. Isso é entretenimento. E quase sempre a Globo faz entretenimento muito bem.
Mais um exemplo para deixar clara a diferença entre os dois mundos. Em meio a uma crise entre Vanderlei Luxemburgo e Ronaldinho Gaúcho, o Flamengo entrou em campo para uma partida decisiva na fase preliminar da Taça Libertadores. Antes do jogo, com os times em campo, o repórter se dirigiu ao treinador e disse. “Eu não vou fazer aquela pergunta”. A pergunta em questão era o problema entre técnico e estrela, que acabou com a demissão do primeiro. Uma briga que claramente influenciava no desempenho da equipe. O Rubro-Negro venceu aquele dia na bacia das almas e acabou eliminado do torneio pouco depois. Um estagiário em início de carreira deveria fazer a pergunta; um editor poderia pensar seriamente em demitir um repórter que bobeasse e não fizesse a pergunta. Perceberam o momento em que o Jornalismo acaba e entra em campo o entretenimento?
O Jornalismo de verdade não precisa ser chato, pode ter humor, pode ter diversão. Tem um monte de gente que faz ainda bom jornalismo esportivo, na TV, no rádio, nos jornais e na internet. Profissionais preparados fazem isso calmamente, sem perder o foco na informação, em qualquer meio. Só falta o público perceber.
Viviane R. 4/8/2012 18:27:30
Ótimo artigo, pondo em contexto a mais pura realidade do jornalismo esportivo atual.
Aurélio Martins Favarin 25/5/2012 15:01:15
Marcos,
Concordo contigo, o entretenimento está com disfarce de jornalismo em diversas áreas, impossibilitando que o público esteja bem informado (em decorrência do que já foi dito sobre conseguir acordos por "pegar leve" em questões de interesse público). Vamos que vamos e continue escrevendo. Adoro esportes e comunicação e ler sobre a junção dos dois é muito bom.
Marcos Moura 23/5/2012 17:37:31
Aurélio. Acho que está tudo ligado à audiência e por tabela ao dinheiro dos anunciantes. Alguns veículos tratam o Esporte hoje como tratam a cobertura policialesca e de 'celebridades'. Nas três áreas, existe Jornalismo e entretenimento. O Fantástico é uma revista eletrônica que também tem Jornalismo. Mas a parte esportiva não é. Grande abraço.
Marcos Moura 23/5/2012 17:34:46
Flavinha. Muchas gracias; B:)
Aurélio Martins Favarin 23/5/2012 09:08:11
Completando o que eu escrevi, a população acaba ficando a mercê do que o veículo decide publicar e como o torcedor quer sempre ter contato com o seu time, tende a acompanhar exatamente os programas de entretenimento, que conseguem os tais acordos e fazem um jornalismo/entretenimento chapa branca.
Aurélio Martins Favarin 23/5/2012 08:41:10
Marcos Moura, é sempre bom ler os seus conteúdos relacionados a comunicação na área esportiva. A questão é que o público tem dificuldade em conseguir diferenciar qual é o papel do jornalista, uma vez que a guerra de interesses vem impossibilitando a realização de um jornalismo que atenda os interesses da sociedade, inclusive na área esportiva. Digo isso não encarando interesse como o R$ em si, mas o fato de acordos do tipo "Se você pegar leve comigo, darei sempre exclusivas pra você". E pra completar, no encerramento do Fantástico, por exemplo, aparece nos créditos "Central Globo de Jornalismo".
Flavia Galindo 22/5/2012 10:52:43
Ótimo artigo!