Paulo Monteiro é mestre em Comunicação e Educação pela Pontifícia Universidad Católica de Chile e pela Universidad Autônoma de Barcelona, bacharel em Filosofia pelo Ateneo Regina Apostolorum de Roma, em sua filial de Nova York - EUA e formado em Comunicação Social pela PUC -Rio. Atua como consultor em Desenvolvimento Humano e Organizacional com foco em áreas como Counseling/Coaching, Carreira, Liderança, Comunicação, Cultura, Desenvolvimento Organizacional e de Equipes. Twitter @pmonteiro88
A experiência que vivi na Rio+20 poderia ser resumida na palavra ‘contraste’. Por um lado, senti uma energia mais que especial, que impregnava cada centímetro da linda cidade anfitriã. Dezenas de painéis e fóruns, muitos transmitidos via web, milhares de pessoas acudindo às diversas atividades, a Cúpula dos Povos fervendo em diversidade, participação, e genuíno desejo de mudança. O Espaço Humanidades construído no Forte de Copacabana brilhou com a participação de pensadores e agentes de mudança de primeira linha, que vieram do mundo inteiro contribuir com o evento.
E na primeira semana da Conferência, quando liguei minha TV à noite, vejo a bizarra cena da CPI do Cachoeira, transmitida ao vivo, como uma obra surreal, ou um filme de comédia, aonde cada implicado defendia com unhas e dentes seus valores (sic) e sua integridade. Foi um primeiro balde de água fria que me colocou frente a frente com esse triste contraste de realidades. O centro de poder do meu país parecia imune e alienado ao fervor de um evento histórico que acontecia do Rio.
Mas meu banho frio não terminou aí. Na própria Rio+20 comecei a acompanhar a dinâmica lenta, retórica, política, e ‘espumosa’ do que vinha acontecendo no Riocentro, lugar de encontro dos políticos e poderosos do mundo inteiro. Essa frustração culminou com a divulgação do documento final, tímido e modesto, diante de uma necessidade tão gritante de mudanças concretas e contundentes. E para culminar, o Secretário Geral da ONU, depois de criticar abertamente o documento, acabou mudando de opinião e se retratando publicamente diante de pressões diplomáticas do país sede, o nosso país. Isso dava um best seller do Saramago...
Minha conclusão foi simples ainda que difícil de aceitar: estamos diante de energias muito diferentes, quase incompatíveis, mundos bem separados e aparentemente opostos. De um lado, a necessidade gritante e imperiosa de transformação global, reconhecida por grande parte da humanidade, e de outro a dinâmica real e pragmática do poder vigente, a mentalidade que resiste em mudar, porque o preço pode ser muito alto.
Estamos diante do limite de uma visão de mundo que por séculos dominou nosso planeta. Essa visão começou a expandir no mundo com o advento da ‘divina razão’, o ‘sagrado cogito’ que tudo poderia conquistar, e foi crescendo com a ascensão científica e tecnológica, a sacralização da individualidade e autonomia. Junto a essa filosofia tivemos a consolidação da economia livre centrada no capital como potencial propulsora de um bem comum para a sociedade, como acreditava Adam Smith, e a máquina industrial que foi crescendo exponencialmente com a função de gerar progresso ilimitado, além de um crescente fortalecimento de um mercado visto como elemento impulsionador e ‘auto regulável’ de uma nova e ‘moderna’ sociedade.
Quando Francis Fukuyama, do Wall Street Journal, declarou em seu mais famoso artigo, ‘O fim da História’, referindo-se ao mundo pós-queda do Muro de Berlim, sua equivocada (ou não) previsão seria o registro mais explicito de um pensamento que naquele momento parecia não encontrar mais opositores, e gritava ao mundo que reinaria soberano pelos séculos dos séculos...
E o que vimos foi uma expansão ainda maior dessa forma de pensar e configurar o mundo. O indivíduo é livre para fazer e ter o que quiser. Essa perspectiva de identidade pelo consumo foi a principal aliada para gerar o aquecimento dos mercados e o crescimento das economias. A riqueza concentrada aumentou, a quantidade de produtos aumentou, o sonho de cada indivíduo ser mais pelo que possui, também. A aposta, pelo menos o declarado quase ideologicamente, era que essa efusão de ‘liberdade’ construiria um mundo melhor.
Então, como bons empíricos e práticos que somos, olhemos para o resultado dessa promessa. Uma desigualdade social e econômica absurda, o número de famintos já ultrapassou há muito tempo a casa do bilhão, a degradação ambiental é alarmante e possivelmente sem volta (quem se interessar em navegar pelo site da Mata Atlântica, pode ter uma experiência reveladora e chocante, só pra não sair do nosso país).
Vemos que a equação não fechou realmente. A combinação de autonomia e individualidade, competição, materialismo e consumismo, com foco no curto prazo, parece não só ser inviável, mas também uma bomba relógio. Essa equação do ‘eu sou livre e autônomo’, ‘eu sou melhor’, ‘tenho direito de comprar e produzir o que quiser’, ‘o que você tem a ver com isso?’ se mostrou ser mais que um tiro no pé, mas um tiro no coração da humanidade. Essa ‘fórmula de sucesso’ esqueceu de incluir o outro, leia-se ‘outro’ como uma pessoa, um ser vivo, o meio ambiente, o planeta etc. Individualismo sem conexão autêntica, sem bem comum, inclusão, cooperação, comunhão, leva à destruição, degradação, esgotamento. E isso a historia está nos mostrando, os dados estão gritando na frente do nosso nariz.
É por isso que a transformação só virá a partir de um novo modelo mental. Trata-se de criar outra equação, outra lógica, outros fundamentos sobre os quais iremos construir nossas vidas e sociedades. A nova racionalidade tem que passar pela integração da individualidade e liberdade, com responsabilidade, conexão e sinergia. É preciso incluir novas crenças: ‘só ganho se todos ganharem’, ‘quem disse que sou melhor que o outro? Somos iguais e complementares’, ‘claro que o outro tem a ver com o que faço e consumo’. Abrir espaço para o verdadeiro ganha-ganha, substituir o olhar egocêntrico pelo sociocêntrico e mundicêntrico: ‘sou parte de um todo maior, então o todo maior é relevante para minha vida’. Trocar ‘crescimento e PIB’, por ‘prosperidade’, reconciliando produção e desenvolvimento, polos que pareceram ser incompatíveis ao longo dos dois últimos séculos.
Já temos vários exemplos de que essa nova lógica é possível e viável. Já há tecnologia disponível para produzir com cuidado e inclusão, gerando riqueza perene. Só que há um custo nessa mudança, o preço de pensar e agir mais em longo prazo e muitos núcleos de poder parecem não estar dispostos a isso.
Que contraditório ver o país sede da conferência sobre sustentabilidade anunciar dias depois subsídios a combustíveis fósseis, um país aonde não é rentável abastecer o carro com álcool devido à sua política econômica de curto prazo. Ah, mas isso gera PIB, dá ibope, e vêm eleições por aí... entendi...
E tão perigoso quanto um governo de horizonte ‘curtoprazista’ são as muitas empresas que vemos querendo manipular a ideia de uma economia sustentável porque agora isso é politicamente correto. Elas não realizarão a mudança porque utilizam termos diferentes sem mudar os valores, a cultura, os processos etc. Falar de ‘economia verde’ continuando a colocar os resultados acima de tudo, fazendo balanços trimestrais para os acionistas, pensando só em termos de margem e escala, é mais perigoso que admitir amor e reverência irrestrita à economia capitalista que já conhecemos, porque então estamos diante de um lobo com aparência de cordeiro (como os personagens da CPI do Cachoeira). O buraco é bem mais embaixo.
Se uma empresa quer se declarar sustentável, ela tem que começar a mudar os seus processos, incorporar a ética na sua estratégia, rever o sistema de remuneração e evitar variações astronômicas entre os níveis hierárquicos, cuidar do clima organizacional como seu bem mais precioso, garantir jornadas de trabalho humanas, evitar metas absurdas para sua capacidade de trabalho, buscar a inclusão social e o respeito ambiental. Um desafio muito mais ambicioso do que muitas organizações estão dispostas a incluir em suas estratégias e governanças. Estamos falando de mudar a forma de pensar a economia, a produtividade, o trabalho humano.
No excelente artigo ‘Sustainability: The ‘Embracers’ Seize Advantage publicado em 2011 pela MIT Sloan Management Review, os autores falam de dois tipos de empresas: as que abraçam a causa da sustentabilidade (‘Embracers’) e as que ainda são cautelosas (‘Cautious Adopters’). As primeiras revelam uma visão de prosperidade, resultados qualitativos, robustez etc. que as segundas não conseguem mencionar em sua auto avaliação. Esse tipo de estudo é importante para desmistificar a crença de que crescimento, evolução e performance são incompatíveis com pensamento de longo prazo ou com uma estratégia baseada em valores sustentáveis. Eu espero que os dias estejam contados para os ‘Cautious Adopters’, mas infelizmente vejo que ainda são a maioria se considero o que experimento como consultor organizacional.
Se a energia da transformação verdadeira parece não seduzir a inércia do poder, então como e quando a mudança virá? Ela já está vindo, e foi isso que senti nas minha andanças pela Rio+20. Algumas semanas antes da conferência começar, um amigo que estimo e admiro, diante da minha inquietação e inconformismo pela mentalidade imperante, me disse que a transformação virá principalmente pela ‘periferia’, pela margem, pelo lugar distante dos centros de poder. E isso eu senti nas diferentes atividades que vivenciei nesse megaevento. Quantas pessoas pensando e agindo diferente, acreditando e ousando viver uma nova mentalidade! Quantos pensadores, grupos sociais, ONGs, associações, empresas, estão buscando escrever um novo capítulo na história, a partir de uma nova e original prática econômica! A periferia está chegando, e que bom que estamos vivos para fazer parte desse momento histórico.
Mas essa periferia também é o espaço que cada indivíduo queira ocupar para transformar. Podemos consumir de uma maneira mais humana e consciente, sem configurar nossa identidade pelo que compramos, sem ter que trocar de Tablet em quatro meses porque acabou de chegar um modelo novo e os colegas no trabalho já compraram. Podemos comprar produtos que não impactam o ambiente, e usar menos tudo o que pode gerar degradação. Como profissionais, podemos pensar na forma de mudar a realidade do nosso entorno, na nossa área mais próxima de trabalho (a sala ou lugar de trabalho, a equipe, a relação com clientes e fornecedores, enfim, o contexto que depende diretamente de nossa liderança). Cada um sabe a dimensão e alcance de seu desafio pessoal.
Como disse brilhantemente Marina Silva em um dos painéis que participou, precisamos resgatar a dimensão ‘autoral’, sermos autores das nossas ações, e deixar um legado de transformação que seja possível realizar. Esse é o inicio. Temos muitos projetos e poucos ideais, então vamos resgatar as utopias, as visões que podem vir a concretizar-se, para provocar - nas palavras de Leonardo Boff - um ‘Tsunami da Consciência’. Se a possibilidade de transformar a realidade está hoje muito mais em cada um de nós e na nossa capacidade de conexão e organização social, então por que não acelerar mais essa transformação?
Podemos contar uma nova história, com outro enredo e novos personagens, e o final (feliz ou não) dependerá do quanto acreditarmos que isso é possível. Eu acredito!
Jaqueline Arruda 8/8/2012 15:41:47
Belo texto, Paulo. Inquietante e inspirador. Excelente visão, vamos transformar....
Paulo Monteiro 19/7/2012 19:41:50
Querida Tânia, concordo plenamente com vc. Gostei muito do termo "micro revoluções"; é isso mesmo. E com a era da conexão em rede, as estruturas de poder mapeadas por varios autores como Focault e outros, irão se dissolvendo em outra dinâmica, muito mais fluida e multidirecional, e aí está nossa esperança. Bjs e obrigado pelo comentario.
Tania Grimaldi 19/7/2012 19:24:03
Paulo, ótimo artigo, traduz as inquietações que vivemos. Acredito muito no poder de transformação que reside em cada um de nós. Não precisamos e não devemos esperar que a transformação venha de uma "entidade superior", seja ela Brasília, a ONU ou qualquer outra. Claro que estas esferas de poder são importantíssimas, porém imaginar que a solução virá daí, não apenas me frustra imensamente, mas - olha o perigo - me paraliza. Imaginar que a solução virá "dos grandes" me diminui, me reduz a pasivo expectador. A solução já está se formando, silenciosamente, no peito de cada um de nós e se manifesta todos os dias e todas as vezes em que agimos de acordo com a Verdade que mora dentro dos nossos corações.
A SOLUÇÃO ESTÁ NAS MICRO-REVOLUÇÕES.
Beijos,
Tania
Paulo Monteiro 17/7/2012 10:13:57
Caro Gaulia, concordo com vc. Cada "tribo" pensa uma coisa a respeito da sustentabilidade. Um projeto importante será buscar parâmetros básicos, transversais, que possam ser uma base a partir da qual trabalhar o sustentável. Exemplo: buraco da camada de ozonio, a questão dos oceanos, o não reciclar etc...; aspectos mais objetivos, científicos, que todos possam concordar. Esse pode ser um bom ponto da partida, mas sem dúvida o caminho é muito longo e o diálogo também. A mudança de mentalidade é urgente, e já vemos avanços, mas uma transformação maior ainda vai demorar um pouco para acontecer.abs.
gaulia 12/7/2012 15:42:59
Paulo, texto efervescente e intenso, traz diversas frentes de reflexão e mostra a sua capacidade de traduzir sua percepção sobre a Rio + 20, como sempre! Parabéns!Para colocar mais um ingrediente nessa reflexão sugiro pensarmos no que significa individualmente o que seria "um legado de transformação". Se todos queremos "salvar o planeta" ou "mudar mentalidades", um olhar mais próximo e necessário pode nos revelar que cada sujeito, tribo, ator social ou organização tem uma concepção completamente diferente do que seja cada uma dessas ideias. A própria "sustentatbilidade" ainda é um conceito complexo, difuso e abstrato, em permanente apropriação por diferentes públicos. Abraço grande, Gaulia.