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Roberto de Castro Neves e Rosa Alegria Roberto de Castro Neves e Rosa Alegria

Um debate sobre a crise mundial e o futuro da comunicação no Chat do Nós

A crise financeira na visão de quem trabalha a comunicação foi o destaque do chat promovido nesta terça-feira, 10 de fevereiro, pelo portal Nós da Comunicação, com dois especialistas do relacionamento humano no mercado corporativo: Rosa Alegria e Roberto de Castro Neves.

 

Rosa Alegria é futurista, comunicóloga, pesquisadora de tendências e sócia-diretora da Perspektiva, empresa especializada em tendências, cenários e estratégias.

 

Roberto de Castro Neves é consultor de imagem empresarial, comunicação integrada e relações com diferentes públicos. Trabalhou por 30 anos na IBM e é fundador da empresa de consultoria Imagem Empresarial.

 

Os dois falaram sobre diálogo, imaginação, estratégia, investimentos e, sobretudo, oportunidades e felicidade em um dos momentos mais difíceis para as organizações nas últimas décadas.

 

Os internautas que fizeram as perguntas mais relevantes durante o chat vão receber livros ofertados pelas editoras Mauad e Jorge Zahar Editor. Os ganhadores, escolhidos pelos póprios convidados, são os seguintes:

- Diego Remus - ‘Crises empresariais com a opinião pública’, Roberto de Castro Neves (Mauad)
- Adriana Thiara - ‘Crises empresariais com a opinião pública’, Roberto de Castro Neves (Mauad)
- Brunno Barranco - ‘Invasão de campo’, de Barbara Smit (Jorge Zahar Editor)
- Maria Cláudia Baima (Málati) - ‘Conectado’, de Juliano Spyer (Jorge Zahar Editor)
- Débora Verdan - ‘Uma história social da mídia’, de Asa Briggs e Peter Burke (Jorge Zahar Editor)

 

 

 

 

 

Confira abaixo os destaques do bate-papo:

 

Diálogo

 

Diego Remus: Considerando que mercados são conversações, a crise acontece por que, em geral, não falamos o suficiente, por que falamos demais, por que falamos sem ouvir ou por que conversamos com má qualidade?
Rosa Alegria: Acho que de tudo um pouco, mas o que realmente é necessário é mudar os filtros com que a informação é encaminhada e considerar que diálogo é diálogo de verdade.
Roberto de Castro Neves: Concordo com a Rosa. De tudo um pouco.

 

 

A mídia como criadora da realidade

 

Málati: O BID (Banco Interamericano de Desenvolvimento) divulgou há poucos dias uma pesquisa mostrando a influência das novelas no comportamento das mulheres brasileiras. Você acredita no potencial de influência de um roteirista na transformação do mundo?
Rosa Alegria: A mídia tem o poder de criar realidades e de escolher onde a luz (o foco) deve ser lançada. Só que a crise, mais do que nunca, tem embaçado o espelho que reflete a realidade. Esse espelho está embaçado com pessimismo, distorção, interesses econômicos. O que a mídia reflete não é a realidade.


 

 

Imaginação x medo


Málati:
É creditado a Einstein a frase de que a imaginação é mais importante que a consciência. Nesse sentido, o poder de criar realidades está diretamente ligado à capacidade de imaginar. Você acha que a escola teria um papel a desempenhar nessa valorização do sonho, da criatividade, da imaginação?
Rosa Alegria: Nossa sociedade, desde o fim da Segunda Guerra, tem sido refém do medo. E o medo é fortalecido pelos filtros negativos da mídia. Isso influencia toda a sociedade, e as escolas precisam adotar o futuro em suas abordagens. Estudamos muita História, mas não estudamos o que queremos ser e fazer no futuro, que mundo nós queremos.


 

 

Uma crise real

 

Bruno: O que se vê nas empresas é mais uma contenção com medo da crise do que a crise em si. As empresas continuam faturando, só que não gastam tanto com medo que venham tempos piores. Isso é verdade? Se for, qual o papel do comunicador dentro da empresa para conseguir mostrar aos públicos essa diferença?
Roberto de Castro Neves: Acho importante estabelecer uma premissa básica. A crise é real. Trilhões de dólares evaporaram em poucos meses. Os efeitos dessa crise ainda não apareceram. As empresas, assim como os governos, não sabem até onde ela vai.


 

 

A melhor estratégia

 

Débora: Neste momento de crise, qual a melhor estratégia para transformar a realidade por meio da comunicação?
Rosa Alegria: A melhor estratégia para transformar a realidade é ter uma visão compartilhada de futuro. O futuro não existe para ser previsto, mas para ser criado.
Roberto de Castro Neves: O que melhor se pode fazer numa crise, independentemente de seu tamanho, é aprender com ela. A crise atual é um prato cheio.
Rosa Alegria: Quanto maior o nível de incerteza, maior o campo de criatividade. Só que as empresas não estão preparadas para a incerteza, preferem trilhar os caminhos mais seguros. E isso é uma ilusão. Está aí o resultado da crise.


 

 

Investimentos em comunicação

 

João Casotti: Roberto, você acredita que, nesses tempos de crise financeira, o investimento na comunicação das empresas será reduzido?
Roberto de Castro Neves: Certamente está havendo redução em todas as áreas.


 

 

Comunicação com o consumidor

 

Brunno Barranco: Rosa, você acredita que, talvez, seja uma boa aposta a longo prazo se aproximar agora dos consumidores com uma estratégia de comunicação de duas vias?
Rosa Alegria: O consumidor evoluiu, e as empresas não evoluíram. É preciso harmonizar essa assimetria. Na comunicação, existe uma crise de confiança tremenda com relação às empresas. E a comunicação ainda não atendeu a essa realidade. Na última pesquisa Edelmann, o 'Barômetro da Confiança', 77% dos jovens pesquisados em 20 países declararam que não submeteriam seus currículos a empresas nas quais não confiam.


 

 

Qual público privilegiar?

 

Marcos Moura: Como uma empresa pode, em momentos de crise, se comunicar com todos os seus públicos de interesse? A organização deve privilegiar alguém? É preferível concentrar esforços no público interno ou em quem está acompanhando a atuação da empresa do lado de fora?
Roberto de Castro Neves: Depende da atividade da empresa e do público mais impactado. A estratégia deve basear-se nessa análise.


 

 

Restaurando a confiança

 

Cristina: Como as empresas podem restaurar a confiança a curto e médio prazos?
Rosa Alegria: Colocando os públicos a bordo, respeitando sua inteligência, com informações relevantes, honestas, verdadeiras e transparentes. Assim como na publicidade, que está ruindo. Não sei se vocês leram o manifesto Clue Train, que foi uma profecia em 1999, que dizia que os mercados estavam começando a se organizar mais rápido do que as empresas. Isso em 99, antes dos escândalos corporativos de 2000.
Roberto de Castro Neves: Fazendo pesquisas, analisando a caixa preta, revendo estratégias.


 

 

Crise de significado

 

Débora: Como aplicar o conceito de visão compartilhada de futuro na prática?
Rosa Alegria: Dando significado à vida das pessoas que trabalham nas empresas. Vivemos uma crise de significado, que tem a ver com gerar valor na vida das pessoas que trabalham na empresa mais do que com um incentivo, um aumento de salário. É preciso conectar as pessoas com sua essência e seus ideais mais nobres. Fazer com que o trabalho que executam esteja a serviço da humanidade.

 

A importância das palavras

 

Málati: O que podemos fazer para que o comunicador entenda a verdadeira importância das palavras?
Rosa Alegria: Vivemos um déficit da linguagem. Uma linguagem deficitária, desprovida de contexto, sem luz. Além disso, a complexidade cognitiva aumenta a cada passo, e precisamos adotar novas linguagens, não somente as verbais e lineares. Precisamos acessar recursos sensoriais, como imagens, sons, olfato, experiências. Esse será o futuro. As experiências promovem o vivenciar da verdade.


 

 

Onde estão as oportunidades?

 

Marcos Moura: Muito se fala de oportunidades em tempos de crise. Mas, até agora, o que estamos vendo é muita crise e pouca oportunidade. Quando as oportunidades vão começar a aparecer, sobretudo para os que vivem no mercado de comunicação?
Rosa Alegria: As oportunidades, nós criamos. Quando começarmos a entrar em contato não com a mídia exterior, mas sim com a mídia interior. Aquilo que temos de intangível e ainda não é medido, não tem valor econômico: a força das ideias, da imaginação.


 

 

Minimizar efeitos da crise

 

Thiara: Existe uma forma prática de minimizar os "estragos" de uma crise?
Roberto de Castro Neves: A receita é ser ágil, transparente, honesto.


 

 

Discurso e prática

 

Málati: Em meio a tanto discurso de crise, parece que esquecemos o tamanho da oportunidade que se abre. Falamos em transformação, e na hora de mudar os próprios padrões e hábitos individuais, a coisa pega...
Rosa Alegria: A distância entre o discurso e a prática é um dos fatores mais devastadores da crise da confiança. Eu sempre falo sobre a necessidade de se criar um índice de coerência. Nada mais pode se esconder. Estamos vivendo a era da transparência, das redes sociais que se conectam e se informam mesmo antes das empresas.
Roberto de Castro Neves: É verdade. As oportunidades para criar são imensas.


 

 

A ética na comunicação

 

Cristina Mello: E nós, profissionais de comunicação, temos um papel ético a cumprir. Não podemos ser coniventes com informações falsas.
Rosa Alegria: O comunicador tem papel vital nessa mudança daqui pra frente. E ele tem de ser o porta-voz da verdade e batalhar para isso, como um ombdusman da transparência. Nada de filtros.
 

 

Cristina Mello: Isso mesmo, Rosa, precisamos fazer a nossa "revolução" ética.
Rosa Alegria: Precisamos refletir, cada um de nós: o que estamos fazendo, de verdade, como comunicadores, para tornar o mundo melhor.

 

Marcos Moura: A questão ética é fundamental em todas as nossas ações. Mas como conciliar ética em um momento real de crise em que o emprego está em grande risco e sem perspectivas de melhora a médio prazo? Isso não acaba interferindo diretamente na atuação, sobretudo, dos líderes?
Rosa Alegria: Para resolver a suposta dialética entre ética e crescimento empresarial, é preciso transformar o modelo de desenvolvimento, transformar o modelo que reina hoje no sistema econômico.
Roberto de Castro Neves: Nessa hora de "salve-se quem puder", não creio que os líderes estejam preocupados com a ética. É triste, mas é verdade.


 

 

Os líderes nas crises

 

Thiara: Por falar em honestidade e transparência, como lidar com um gestor que quer encobrir uma crise?
Roberto de Castro Neves: O que se tem de fazer é educá-lo.


 

 

Porta-voz e grupos anticrise

 

Thiara: Com relação à escolha do porta-voz. Quem seria o mais indicado? Além disso, criar grupos "anticrise" dá certo?
Roberto de Castro Neves: Gosto da ideia de porta-voz temático. Noutras palavras, alguém que saiba do que está falando.
Rosa Alegria: Em vez de grupos anticrise, eu criaria grupos de criação. Para antecipar-se ou mitigar as crises, é preciso fortalecer o tônus criativo das organizações, com ambientes propícios para isso. Nada de salinhas quadradas geladas com ar-condicionado e chefe dando tapinhas nas costas.


 

 

O empresariado brasileiro

 

Brunno Barranco: Vocês acreditam que o empresariado brasileiro está pronto para adotar uma estratégia em que o projeto oferecido é realmente completo, com um olhar conjunto entre os três universos: Marca + Consumidor + Economia?
Rosa Alegria: Eu acho que é preciso reconceituar esses três universos antes de tudo. Marca deve dar lugar à relação. Consumidor (essa palavra, já no dicionário, é negativa = exaustão, destruição) deveria passar a ser interlocutor (como Nádia Rebouças prega) ou parceiro. E a economia deveria ser totalmente reorientada. Em vez de servir às pessoas, as pessoas é que servem à economia, ficando presas a taxas de juros perversas e aliciadas por mensagens comerciais falsas. Além disso, devemos mudar as métricas com que medimos a realidade. Atualmente, temos o PIB (Produto Interno Bruto), que tem a ver com crescimento e produção. E esse crescimento está gerando lixo, destruição, devastação ambiental.
Roberto de Castro Neves: Sendo muito direto. O empresariado brasileiro não está preparado. A boa notícia é que já esteve pior.
Rosa Alegria: O empresariado já esteve pior, eu concordo. Várias pesquisas indicam isso. Alguns saem da empresa para dar mais sentido à vida. Outros buscam mudar sua ótica de gestão. Oitenta e quatro por cento dos executivos se declararam infelizes em pesquisa feita pela Fundação Dom Cabral. Isso é sinal de que algo está acontecendo. Outra pesquisa, da Minarelli, descobriu que os executivos, quando são demitidos, em vez de entrar em depressão, sentem-se aliviados. Por isso, a prioridade é tornar o ambiente de trabalho mais feliz. E nós, comunicadores, precisamos refletir sobre nosso propósito no mundo e nos situarmos nesse momento histórico. Nossas escolhas poderão mudar muitas realidades nas empresas.


 

 

A felicidade nas empresas

 

Dione: O capital humano é um dos principais ativos geradores de riqueza nas empresas. O investimento em capital humano tanto falado pelos empresários, hoje, passa a dar lugar a "despesas com pessoal". Empresas que pensam e agem dessa forma não estarão se afundando mais na crise em vez de fazer com que esse capital humano pense em saídas mais criativas para solucionar determinados problemas, sejam de serviços, de comunicação ou financeiro?
Rosa Alegria: Hoje, a mídia adota a felicidade como indicador. Recentemente, esteve aqui um grupo do Butão para mostrar como criou os indicadores de felicidade no país. E a mídia adotou o tema. Agora, tem um grupo no Brasil, do qual faço parte, que está adaptando esses indicadores a nossa realidade e que serão aplicados no âmbito dos municípios e das empresas, o FIB (Felicidade Interna Bruta). Felicidade é um conceito subjetivo e contextual, mas existem metodologias científicas que tentam se aproximar ao máximo dos parâmetros do que esse conceito significa na vida das pessoas. Cientistas de Oxford, EUA, Canadá e até aqui no Brasil (o Eduardo Gianetti) têm estudado esse tema. Implantar o FIB nas empresas pode mudar completamente os parâmetros de satisfação e do clima organizacional.

 

 

 

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